Dados do IBGE
Mesmo tendo estudado Sociologia, em Roma, estou longe de ser um bom sociólogo. Por isso, diante das tabelas montadas pelos competentes sociólogos do IBGE sobre as religiões no Brasil, só me quedei na admiração e no espanto. No espelho das tabelas, é bom saber, sem retoques, o que somos e como somos. Para os que não tiveram tempo ou curiosidade de se demorar sobre as estatísticas, permitam-me, sem grandes análises, num superficial voo de pássaro, apresentar algumas surpresas que podem ter causado ou desencantamentos ou satisfação. Há dados curiosos. Como alertam os políticos, os números são sempre verdadeiros, mas mais importantes do que os números secos são as avaliações que deles se depreendem. Eis alguns dados:
- No fim do Império, em 1872, 99,7% da população brasileira se declarava católica. Em 1970, esta impressionate percentagem caía para 91,8%. Em 2000, confessavam-se católicos 73,6% e, no último censo, em 2010, a cifra foi de 64,6%, o que não é pouco, mas já é bastante menor. Surprendentemente, 65,5% de homens se declararam católicos, enquanto de mulheres somente 63,8%.
- Sob o guarda-chuva genérico dos evangélicos, os números aparecem, agora, bastante significativos. Em 2000, eram 15,% da população e, em 2010, somavam 22,2%. Nesta demonimação, incluem-se 60,0% de confissão pentecostal, 18,5% de evangélicos em missão (as tradicionais religiões luterana, presbiteriana, batista, etc.) e 21,8% de evangélicos não especificados. Todos seguiriam, usando com respeito o coletivo, a vertente protestante.
- Os espíritas também cresceram em números. Em 2000, eram 1,3% da população (2,3 milhões). Em 2010, passaram para 2,0% (3,8%). Esse grupo também apresentou os maiores rendimentos entre todos os segmentos e os mais altos indicadores em educação.
- Os sem religião deram um grande salto. Em 2000, eram quase 12,5 milhões (7,3%), passando, em 2010, a 15 milhões (8%). Em referência ao sexo, 9,7% eram homens e apenas 6,4%, mulheres.
Evangélicos
Alguns segmentos das religiões pentecostais perderam significativos números de adeptos (a Universal do Reino de Deus perdeu mais de 11%). As razões podem ser muitas. Os fiéis podem se sentir cativados por algum tempo com promessas falaciosas e mirabolantes, como a da Teologia da Prosperidade, e milagres a curto prazo, mas pode também se sentir defraudado em suas esperanças. Isso conta muito. Outro fator que pode ter levado à deserção de levas de fiéis pode repousar na presunção destas igrejas de construírem grandes templos, como existem no Rio, São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e outras gandes cidades. A pastoral de atrair o povo para espaçosas igrejas, à imitação da Igreja Católica, pode ter distanciado estes segmentos do habitat de suas necessidades. Algumas igrejas deixaram de ir aonde o povo estava, procurando erradamente atrair o povo para seus suntuosos templos. Leonardo Boff, o grande teólogo católico, já denunciava isso em um de seus proféticos livros, intitulado: “A Igreja que se faz povo” e não o povo que se faz igreja. Sobre a questão de dinheiro, não é bom nem falar. Basta lembrar que, em todo o Novo Testamento, não se menciona uma única vez a palavra dízimo. Dar uma côngrua contribuição às igrejas pode ser justo e sinal de maturidade espiritual e religiosa, mas enriquecer pastores (e padres) com os restos de um salário miserável é crime contra a economia popular e contra o bem-estar das famílias.
Igreja Católica
Excusado é dizer que os dados do IBGE assustaram os quadros dirigentes da Igreja católica. O menor percentual de católicos foi encontrado no Rio de Janeiro. Tomo este fato como exemplo. A partir dos fins de 1970 e começos os anos 80, desencadeou-se na Arquidiocesde do Rio uma campanha sistemática contra a Teologia da Libertação e contra as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Havia, então, no Brasil, cerca de 100 mil CEBs. No Rio, o desestímulo a essas Comunidades foi fatal e acintoso. A Igreja católica abandonou sistematicamente as periferias onde as CEBs funcionavam e alimentavam a religiosidade popular. Literalmente, abriu um flanco para o surgimento, primeiro, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em 1978, e, depois, de outras denominações, encabeçadas por R.R.Soares e pelo apóstolo Waldomiro Santigado. O crime, por parte da Igreja católica, foi de abandono de seus fiéis. Desamparados, se tornaram adeptos fáceis de religiões que lhes prometiam o céu na terra, mesmo tendo que entregar, em forma de dízimo, seus bens de primeira necessidade. Infelizmente, o mundo religioso também obedece a decisões políticas que, quando mal tomadas, podem causar graves e dolorosas consequências.
Leitores
Agradeço as seguintes visitas: O jornalista Geneton Moraes Neto comenta o tópico sobre suas entrevistas na GloboNews, feito na coluna, agradecendo por minhas generosas palavras. Foram merecidas. Ivanilda Alves Fernandes decanta a inteligência do articulista e só lamenta não ser ele tricolor, mas rubro-negro. Tô bem assim. Nilciléa Moulin louva as reflexões sobre a necessidade de ler e sobre o livro “como amigo silencioso” e diz nunca ter pensado o livro como algo que pode ser fechado “sem pedir desculpas”. Antônio Carlos Sarkis Issa afirma que existem três tipos de mentira: as maldosas, ditas com a finalidade de prejudicar; as bondosas, que tentam esconder algo de ruim; e as estatísticas, que “escondem mais do que mostram seus números frios”. E Rê Sacampello fala de “aplausos merecidos”. Sou-lhes devedor por sua leitura e acompanhamento.
Frei Neylor, irmão menor e pecador
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