Entrevistas
O pernambucano Geneton Moraes Neto (Recife, *1956) é um entrevistador maior. O superlativo que mais lhe assenta é “nobilíssimo” e o adjetivo poderia ser “intimorato”. Ele sabe perguntar e não foge, com acribia e respeito, das perguntas mais espinhosas. Bastaria lembrar a entrevista que fez ao ex-governador de São Paulo, Paulo Egídio Martins, que esclareceu, sem rebuços, e execrou a farsa montada quando do autoenforcamento do preso político, o jornalista Wladinir Herzog. Mas a entrevista das entrevistas, ele a fez com o ex-Presidente Jimmy Carter e o Bispo sul-africano Desmond Tutu. Digo isso, admirado, diante das perguntas e respostas políticas e espirituais que se sucederam. Jimmy Carter não hesitou em afirmar que o pior erro cometido por seu país foi o bloqueio econômico à Cuba e que não vê o Presidente da Venezuela Hugo Chávez como inimigo irrecuperável dos USA. Garantiu que a paz só poderá acontecer entre israelitas e palestinos quando os primeiros abandonarem os países ocupados da Palestina e Síria e os segundos reconhecerem, sem meios termos, o direito de Israel como país autônomo. Disse ainda que gostaria de ver seu nome passando para a história como alguém que não mentiu como Presidente e como defensor acérrimo das liberdades e direitos humanos. Por seu lado, o Bispo Desmond Tutu asseverou que não gosta de ranquear as pessoas como inimigas, ou seja, uma mais e outra menos. A grande questão, segundo ele, é o que podemos fazer para ajudá-las. Quando perguntado pelo jornalista: “Se o senhor se encontrar com Deus, o que o senhor lhe perguntaria em primeiro lugar?”, ele, de bom humor, respondeu: “Não me pergunte “se”, mas “quando” eu me encontrar com Ele. Eu lhe perguntaria: Por que o Senhor permitiu tanto sofrimento e desgraça ao nosso mundo?” A entrevista foi riquíssima, nobre e irretocável. Jornalistas deste naipe honram o Brasil. Não só elevam seu nível, mas enriquecem seus ouvintes. Obrigado, Geneton Moraes Neto. (As entrevistas do jornalista são apresentadas, na Globonews, aos sábados à noite. Não deixe de assisti-las!)
Sobre a importância de ler
Aceita-se como verdade indesmentível que nós, brasileiros, em geral, lemos pouco ou muito pouco. Diz-se que outros povos teriam o hábito da leitura, o que faltaria ao povo brasileiro. Mas também é verdade que no Brasil há mais de mil Editoras e todas elas sobrevivendo, graças a seus Leitores (que compram seus livros). As Bienais de São Paulo e do Rio, assim como as Feiras de Livros de Porto Alegre, de Curitiba, de Campinas e de muitas outras cidades brasileiras também são acontecimentos auspiciosos. Tudo isso não desmente o fato da pouca e insuficiente leitura do nosso povo. Não temos, em nosso DNA cultural, o hábito da leitura.
Longe de mim condenar o arraigado hábito brasileiro de ver televisão, de seguir novelas, de assistir a disputas esportivas. Tudo isso é bom e gostoso. Mas seria também importante reservar um tempo para ler jornais e um bom livro. O bom livro não precisa ser religioso (até, pelo contrário). Bons autores são mestres da sabedoria humana e podem ensinar a suprema arte de viver e de como enfrentar, com grandeza e sabedoria, os desafios da vida.
É muito importante manter uma atitude receptiva e ter o coração aberto, procurando enriquecer-se espiritual e afetivamente. Quando somos adultos, temos normalmente uma fieira de amigos. Entre os muitos amigos, deveríamos abrir espaço para um outro amigo: o livro. O livro, costuma-se dizer, é um amigo silencioso. Silencioso e rico, sábio e paciente. Podemos tratá-lo com carinho e afeto, segurá-lo nas mãos ou fechá-lo sem pedir desculpas.
A leitura de histórias maravilhosas é muito importante para as crianças, pois as leva para o mundo da imaginação e dos sonhos, além de ensiná-las a se posicionar diante de uma vida que lhes é contada nos livros. Diríamos o mesmo em relação aos adolescentes e jovens, ainda tão indefinidos em suas opções. As personagens dos livros podem lhes apontar novos caminhos e estimulá-las a pensar grande, levando-as a serem como elas. Os adultos encontrariam nos livros uma parceria que tornariam suas vidas menos chatas e problemáticas. Esta idade sofre da tentação de falar e ensinar. Psicologicamente, experimenta grande confiança e intelectualmente vê-se preparada para dizer como a vida é ou não deveria ser. É nesta tentativa que se faz necessário continuar lendo, bem e muito. Embora o núcleo intelectual e afetivo de nossa vida já esteja bastante delineado, necessita ele de contínuo enriquecimento para não escorregar para o ridículo pessoal e para o menosprezo dos outros. Ler e ler bem e selecionadamente será, então, importante e vital. Caso contrário, podemos nos tornar cansativos, repetitivos, chatos e, culturalmente, miseráveis.
Frei Neylor, irmão menor e pecador
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