Sábado, 30 de Agosto de 2014
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O Repórter

Leonardo Ganem

Léo Ganem foi pesquisador na área Biomédica por 10 anos com passagens pelas universidades de Duke, Wisconsin-Madison e Harvard, mas se realizou mesmo no show business. Primeiro, como presidente da Som Livre foi o responsável pelo lançamento de nomes como Maria Gadú, Luan Santana, Michel Teló, Marcelo Jeneci e Padre Fabio de Mello. Comandou a Geo, empresa de eventos da Globo. É fundador e sócio-diretor Um Entretenimento, primeira agência brasileira focada em talentos e eventos gospel.
Leonardo Ganem

Linhas Cruzadas Latinas

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Leonardo Ganem - 29 de junho de 2012 às 06:01

Introdução

Escolher uma profissão, uma área de estudo aos 17 anos como fazemos no Brasil ao ingressarmos na universidade não é fácil. Somos forçados a tomar uma decisão que repercutirá por toda nossa vida com a cabeça em ebulição hormonal e com o benefício de uns trinta minutos de experiência sócio-cultural.  Não me surpreende então que eu tenha escolhido biologia – vivia na praia, idolatrava Jacques Cousteau, tinha comprado um aquário! O que mais poderia escolher? O mundo do entretenimento, viver de música e de eventos não foram sequer ponderações distantes. Certa vez comentei em um bate papo que Charlie Parker chegou para mim como whisky: tarde na vida e não sem alguns desgostos e acidentes de percurso. 

Capítulo 1

A primeira pessoa que conheci no mundo do entretenimento foi meu ex-cunhado, na época namorado da minha irmã Paula. O Christóvan, além de DJ de rádio, havia lançado uma gravadora com grande sucesso, a Spotlight. Ele também gerenciava a carreira de alguns dos grandes nomes da música pop dos anos 90, incluindo a cantora Corona (“This is the rythm of the night”), Double You (“Please Don’t Go” e “Run to Me”) e o eterno Latino, embalado na época pelo sucesso de “Me Leva”.  A festa de casamento do Chris e da Paula foi um espetáculo, com a presença dessa galera que animava o Brasil.

Mas a euforia daquela noite não durou muito. Poucos anos mais tarde, acordei na minha casa em Madison, onde cursava a pós-graduação em biologia, numa madrugada gelada de janeiro com o telefone tocando. Era minha irmã, sempre distraída com o fuso horário, querendo conversar: “não aguento mais, vou me separar”. “Mas por que Paula? O Chris é tão gente boa, tem aquela cabeçorra gigante, mas é gente boa...”. “Ele foi feito pra noite, eu para o dia. Ele gosta de festa, eu de ler, ele gosta do Latino, eu não aguento mais os dois pulando aqui dentro de casa”. “Mas Paula, as pessoas podem ter tanto defeito pior, a gente tem que ter um grau de flexibilidade, tem que se adaptar. Eu gosto do Chris e do Latino”. “Pô, então leva eles pra você”. Conversa encerrada, não houve jeito, a ligação havia sido somente um comunicado, não um debate.

Capítulo 2

Quando voltei dos Estados Unidos para trabalhar em uma consultoria de negócios no Rio, minha filha, Bruna, tinha três anos e se comunicava através de uma salada linguística: “papai I want água” ou “yo quero uma tortuga”.  Certa vez ela desenvolveu uma mania engraçada. Chegava de pijama na mesa do café todo dia de manhã e me chamava pelo nome de algum objeto: “daddy, você é mesa”, depois “papi, você é janela” ou ainda “papai, você é porta”. Assim mesmo, um objeto por dia, em seqüência. Sabe-se lá de que recanto da cabeça de criança ela tirou isso.

Um belo dia mais ensolarado ela chegou e disparou, sem que pudesse prever as consequências: “papai, você é luz”. Eu e sua mãe levantamos e rebatemos imediatamente, cantando em uníssono sem sequer pensar “é raio estrela e luar, manhã de sol, meu iaiá meu ioiô...”. Claro que ela ficou enfurecida, como se tivéssemos quebrado algum pacto secreto de não participar na brincadeira, correu pro quarto chorando e nunca mais me chamou de objeto algum.

Capítulo 3

Anos depois, quando entrei pra Som Livre, o primeiro artista que conheci, por coincidência, foi o Wando. Contei a história pra ele, rimos muito, pedi que ele me assinasse um CD dele, o que fez com o maior carinho: “Bruna, você é luz, raio estrela e luar. Um beijão do Wando”.

Pouco depois do papo com o Wando, também vieram me procurar meu ex-cunhado Chris e o Latino. Sentaram-se comigo para discutir o lançamento do CD “Latino na Pista”, pela Som Livre. Batemos papo, rimos dos velhos tempos e selamos uma parceria sobre o CD, o primeiro de muitos que o Latino acabou lançando conosco nessa fase.

Epílogo

A vida, de vez em quando, dá uma de Hollywood e arremata todas as pontas soltas:

Minha irmã, Paula, casou novamente com outro Chris, mas esse também, como ela, curte mais o dia do que a noite, mais um livro do que uma balada.

A filhota Bruna, apaixonada que está pelo One Direction, ainda não deu todo o valor para a música do meu breve amigo Wando. Quando chegar lá, vai receber de presente um CD autografado, que hoje guardo com cuidado.

O William Naraine continua com a mesma cara e estourando sucessos pelas mãos de DJs como Tiesto. De vez em quando, saímos pela noite de São Paulo onde o pessoal não faz cerimônia e o aborda logo: “falaeeee o Double You!! Sou teu fã, porra!”

Segui o conselho da minha irmã e levei – para vida – Chris e Latino. Tornaram-se meus bons amigos, nos vemos todo mês, muitas vezes para uma “festa no apê”.

O Wando faleceu no dia 8 de fevereiro, quando eu e Latino fizemos nossa festa conjunta de aniversário. A homenagem aconteceu naturalmente, o Club Royal se levantou para cantar a música que transcendeu o brega e se tornou inevitável – não se diz luz sem que a cabeça emende rápido: “é raio, estrela e luar”.


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