Não gostei de "Para Roma com Amor", último filme da fase europeia de Woody Allen. Aliás, já não vinha gostando dos últimos trabalhos desse que já foi, no conjunto da obra, meu roteirista, diretor e ator favorito. Todo fã gosta de algo de exclusivo e especial na sua relação com o ídolo. Então, naturalmente, quando um artista, cantor, escritor se torna mais comercial e pop o fã se sente traído, e excluído diante da nova multidão de seguidores. Woody Allen vem se tornando mais comercial e parte do que sinto sobre seus últimos trabalhos é a síndrome de fã traído – reconheço. Mas "Para Roma com Amor" não peca somente ao me alienar, é um filme ruim mesmo, preguiçoso no roteiro, óbvio nas referências e repetitivo no humor.
"Roma" conta quatro histórias paralelas: a americana e italiano que se apaixonam e recebem, na cidade eterna, a visita dos pais da menina, papéis de Woody Allen e Judy Davis; o marido e mulher do interior, que chegam atrás de uma oportunidade de emprego para ele, mas acabam separados por acidente e flertando, cada um, com a infidelidade; o homem de classe média que, sem nenhuma razão, desperta famoso e perseguido pela mídia; e o casal de americanos estudantes morando na cidade que recebem a visita de uma amiga sexy que gera a esperada tensão no relacionamento dos dois. O roteiro é preguiçoso porque não liga as pontas dessas quatro histórias. Separadas elas nascem e se mantêm, algumas melhores outras sem sal como a do casal infiel. O tema que muito subliminarmente liga tudo parece ser a arbitrariedade que governa a fama e o desejo: o amor e o reconhecimento acontecem por acidente e se desfazem da mesma forma. Mas esse tema central não basta para dar liga, o filme começa em um cruzamento em que o guarda tenta organizar o trânsito caótico, isso poderia muito bem servir de metáfora para o que viria: interseções muito mais consistentes entre as sub-tramas. Mas nada disso acontece.
Tirando o crítico metido em mim, fiquei triste por ver Woody Allen, enfim, velhinho. A voz entrecortada entrega a idade, assim como as histórias repetidas. Em pelo menos duas cenas reconheci piadas e situações de filmes passados. Em uma primeira quando a mulher de Allen diz “você não está morrendo”, e ele responde “agora não, mas muito provavelmente um dia”, o casal de "Roma" reproduz exatamente o diálogo entre Larry David e sua mulher, em "Tudo Pode Dar Certo de 2010". Outra cena reproduz com exatidão um diálogo entre Jason Biggs e Christina Ricci em "Igual a Tudo na Vida de 2004": o homem casado demonstra sua paixão pela amiga da mulher concordando com tudo que ela diz em um restaurante. Além disso, é um tanto óbvia a referência a La Dolce Vita de Fellini nas cenas em que paparazzi correm atrás do novo famoso. A coisa toda transparece preguiça, cansaço, um Allen, como eu disse, velhinho. Algumas tiradas lembraram seu humor clássico, em dado ponto, por exemplo, ele vira para a mulher e diz “if you are channeling Freud, ask for my money back”. Infelizmente, “channeling” foi traduzido erradamente como “citando” e não “psicografando”, arruinando uma das únicas boas linhas do filme para boa parte da plateia.
As pessoas ao redor rindo do nada e comentando baixinho “ele é um gênio” me irritaram. Senti só a melancolia que se tem quando o avô pede a atenção e conta pela décima vez a história do carnaval de 72. Claro que a gente ouve com respeito, e sorri manso fingindo não lembrar, mas a sensação de que a vida passa rápido demais só da vontade de chorar. Encerro com saudades do cara que me ensinou que diante do vazio existencial existe alternativa para o suicídio camusiano, o humor: “What if everything is an illusion and nothing exists? In that case, I definitely overpaid for my carpet.” - Woody Allen

