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O Repórter

Leonardo Ganem

Léo Ganem foi pesquisador na área Biomédica por 10 anos com passagens pelas universidades de Duke, Wisconsin-Madison e Harvard, mas se realizou mesmo no show business. Primeiro, como presidente da Som Livre foi o responsável pelo lançamento de nomes como Maria Gadú, Luan Santana, Michel Teló, Marcelo Jeneci e Padre Fabio de Mello. Comandou a Geo, empresa de eventos da Globo. É fundador e sócio-diretor Um Entretenimento, primeira agência brasileira focada em talentos e eventos gospel.
Leonardo Ganem

Once upon a Ghost

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Leonardo Ganem - 04 de maio de 2012 às 08:02

Semana passada, tive a oportunidade de assistir a dois musicais recém-estreados na Broadway, ambos adaptados de filmes: Once e Ghost. As produções, hoje fisicamente próximas - a primeira na rua 45, a outra na 46 - são distantes em qualquer outro sentido: qualidade da música, efeitos especiais, adequação dos artistas, sensibilidade. Toda oposição diametral como essa, ao exagerar os espaços, proporciona perspectiva e uma oportunidade única para análise, mesmo para alguém que nunca foi crítico de teatro como eu. Levar um livro para as telas, musicar um poema, transformar um filme em musical, transportar qualquer manifestação artística de uma plataforma de expressão para a próxima deve ter uma razão de ser, assim como deveria ter razão de ser o trabalho original. E é sob essa luz que Once funciona muito bem no palco adicionando novas faces, ângulos e interpretações ao filme. Enquanto Ghost é uma cópia exata, que torna ao vivo e brega uma história bonita que nem o canastrão Patrick Swayze havia conseguido destruir.

O filme Once foi sucesso de crítica e ganhou o Oscar de melhor música por Falling Slowly. Na tela grande, dois personagens anônimos, simplesmente "guy" e "girl", ele irlandês, ela tcheca se encontram nas ruas de Dublin por meio da música. As canções, todas excelentes, são de fato composições dos dois artistas, Glenn Hansard e Marketa Irglova, que fazem os papéis principais. Juntos, os personagens mantêm uma rápida, porém estreita amizade consumada somente na forma de um CD que produzem e gravam. Na vida real, Glenn e Marketa foram um pouco mais longe, se envolveram, terminaram, montaram a banda The Swell Season e excursionaram pelo mundo todo, ganharam até documentário sobre essa história que acaba se confundindo tremendamente com a do filme. Em agosto de 2010, enquanto dirigia a Som Livre, tive a oportunidade de trazê-los ao Brasil, onde fizeram dois memoráveis shows no Rio e em São Paulo.

Por que Once funcionou nos palcos? O crítico de teatro Ben Brantley, do The New York Times, apontou que na tradução de um filme para um musical, em geral a fórmula passa por tornar óbvio o que se fez sutil, por explorar os pontos menos explícitos. O musical Once faz isso brilhantemente. Guy pergunta para girl logo de saída: "are you serious?", ela responde "I'm always serious, I'm Czech". Com essa tirada, a personagem teatral demonstra o tipo de humor auto-depreciativo que nunca sairia da boca de Marketa, realmente Tcheca e realmente séria. Assim, girl se torna uma caricatura bem mais divertida na sua versão Broadway. O mesmo acontece com os amigos da dupla, com a mãe de girl, com o dono da loja de instrumentos onde eles ensaiam, e mesmo com o banqueiro que lhes empresta dinheiro para a gravação do CD. Nenhum desses personagens tem qualquer passagem marcante no filme, todos se tornam suportes divertidos para a peça. Além dessas adaptações bem sucedidas, o cenário que remete a um pub irlandês funciona, e junto com a música maravilhosa transporta a platéia. O único ponto fraco nas interpretações foi guy que, encenado por um bonitão com boa voz, não executou as músicas com a mesma paixão, realismo e raiva de Glenn, um cara feioso mas de uma intensidade insubstituível. Para o público em geral, que em sua grande maioria não conhece o irlandês original, isso não vai importar.

Do outro lado do espectro, impossível resistir aos trocadilhos, vem Ghost, dispensando apresentações: foi em seu tempo um sucesso de público. A reencarnação do filme como musical - não consigo me segurar - não trouxe absolutamente nada de novo para a história, exceto atores e representações piores. Richard Fleeshman, o protagonista, consegue superar a canastrice de Swayze, e como faz isso ao vivo, a coisa toda é brega ao alcance do braço. Demi Moore é substituída por uma chatinha, Caissie Levy, aparentemente com alguma representatividade no mundo teatral de Nova Iorque. E a única atuação digna de aplauso é a de Da'Vine Joy Randolph, no papel de Oda Mae Brown, encenada por Whoopy Goldberg no filme. À exceção de Unchained Melody, as demais músicas foram compostas pelo ex-Eurythmic Dave Stewart e são fracas, não “pegam”, a gente sai do teatro cantarolando baixinho o tema original "ohhh my love, my darling...". Resta dizer que os efeitos especiais são realmente espetaculares e certamente serão adaptados e usados em muitos musicais por anos e anos.

A comparação de Once e Ghost me remeteu a primeira fala de Antônio Fagundes na peça Vermelho, atualmente em cartaz em São Paulo. Seu personagem, o pintor Rothko, pergunta a opinião do assistente sobre um quadro. O garoto diz “legal”, e recebe uma avalanche em troca: “hoje em dia tudo é bonitinho, ‘legal’. Mas onde está o discernimento, o que separa o que eu acho ‘legal’ do que eu respeito, do que acho valioso, do que tem... preste atenção... significado.” Feitas as contas, noves fora zero, o público de fim-de-semana vai achar o musical Ghost legal. Mas Once tem beleza, sensibilidade e significado em qualquer plataforma. Recomendo o filme, o show, o documentário e o musical. Essas qualidades nem sempre se traduzem em sucesso comercial, mas inevitavelmente tornam a vida mais profunda e colorida no meio de tanta aridez.


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Comentários (1)
  • Giovanni Andrade Santos (Pinhão)

    olha cada um tem seu gosto mais acho que ghost revolucionou a história da broadway trouxe algo de novo futurista e é um dos raros musicais em que muitas canções são boas e si destacam!

    29/07/2012 07:43 Carregando...
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