
Paulo tinha um emprego no circo, era o responsável por limpar o cercado do elefante. Removia dali, diariamente, as dezenas de quilos de bosta do animal. Se quebrava na árdua tarefa, pá atrás de pá, carrinho atrás de carrinho, eterno trabalho de Sísifo. Um amigo ouvindo suas reclamações perguntou “mas por que você não pede demissão desse emprego de merda?” ao que Paulo respondeu “ahnn?? E largar o show biz???”.
A piada, por boba que seja, sintetiza uma realidade profunda a respeito dos eventos ao vivo. O negócio é duro e sujeito a todas as intempéries, as margens são apertadas, o meio é informal. No entanto, algo sobre a proximidade com o artista, sobre a capacidade de mover ou parar uma cidade para um show, sobre o grito do fã ao som do Foo Fighters, sobre o sorriso de uma criança ao ver entrar no palco uma galinha azul, algo sobre criar e ser notícia sempre foi atraente. Adicionalmente, no Brasil dos últimos anos, alguns fatores bastante tangíveis fortaleceram a corrida do glamour. Um dólar relativamente barato e estável, um respeitável público com dinheiro no bolso e a entrada de patrocinadores antenados à uma estratégia de marketing mais ampla atraíram os mais diversos tipos de pessoas e empresas para o show business ‘made in Brazil’. Na confusão dos novos entrantes – excluídos aqui, portanto, grandes nomes do setor como Möeller e Botelho, Luiz Oscar Niemeyer, Roberto Medina e Ricardo Amaral – destaco três grupos distintos: os aventureiros, os grupos de mídia e os publicitários. Dos três, dois sobreviverão.
Os aventureiros formam um grupo eclético que inclui qualquer maluco que tenha entre R$ 500 mil e R$ 35 bilhões captados em bolsa. Membros desse grupo fazem show como quem joga em Vegas, não têm estratégia de portfólio, pagam pra ver, querem “quebrar a banca” no primeiro golpe, não fazem pesquisa ou conta, acreditam mesmo em sua intuição. Argumentam com fervor que o cheiro de sua fortitude testicular é sentido por agentes e artistas em ‘Rodeo Drive’ onde se consolidam como produtores de renome. Mas num piscar de olhos, o show acabou. O último ‘roadie partiu, a casa agendou o próximo ato, suas contas estão a zero e a rua de ‘Pretty Woman' continua linda, seguindo seu curso indiferente ao ex-novo produtor tupiniquim. O aventureiro individual morre, mas sua lenda permanece e basta para atrair novos loucos para esse grupo que se regenera e sobrevive.
Os grupos de mídia entendem corretamente que os eventos são uma extensão natural dos seus negócios. Esses grupos criam conteúdo, conectam-se com uma audiência e vendem essa conexão para anunciantes. Eles perceberam que anunciantes visando um público jovem pós-digital colorem cada vez mais com suas marcas os eventos ao vivo em palcos, arenas e estádios. “Ora um evento é uma TV sem a tela de LCD, um veículo como qualquer outro para que bons conteúdos atinjam uma audiência, veículo e conteúdo são a nossa praia”. Nasceram desse pensamento empresas como a GEO e a RBS Eventos, que simplesmente ampliam uma linha de produção existente de acordo com a demanda do cliente – parece coisa de consultoria. Os grupos de mídia individuais sobrevivem bem como suas novas empreitadas.
Finalmente, os publicitários têm como clientes os mesmos anunciantes dos grupos de mídia, observaram o mesmo movimento de transformação desses clientes em patrocinadores, e se lançaram atrás do novo rumo do dinheiro de marketing. Na vertigem da corrida não perceberam que têm sim o mesmo paciente, mas são médicos e não indústria farmacêutica. Se Dr. Roberval compra a Pfizer, como você, paciente, vai acreditar quando ele te diz que Viagra é melhor do que Cialis da Eli Lilly? Na confusa sopa de letrinhas s t u v w x y z vejo escrito “enorme conflito de interesses”. Um dia, paciente e Eli Lilly vão se encher, baterão cabeça com o Dr. Roberval, e a cadeia de valor voltará ao que sempre foi: paciente pede, médico prescreve, a indústria farmacêutica provê.
Na esperança de que o leitor não tenha se perdido no show de metáforas estapafúrdias, fica a nota de alívio para os publicitários: lembrem que sair do show biz pode ser duro, mas é como parar de carregar bosta de elefante, deve ter um lado bom.

