Sábado, 16 de Dezembro de 2017

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Somos todos mendigos

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Frei Neylor Tonin - 04 de janeiro de 2014 às 11:40
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No início de um ANO NOVO, uma reflexão sobre a mendicidade humana. Não nos esqueçamos de que, apesar de nossas riquezas, somos todos mendigos, uns pobres mendigos. Podemos ter muitos bens, mais do que necessitamos, mas falta-nos muito, infinitamente mais. Ninguém de nós, por exemplo, é dono da água com que lavamos o rosto, ao acordar de manhã cedinho. Ninguém de nós é dono do ar que respiramos. Ninguém é dono do firmamento, que nos cobre, sem nada nos cobrar, com os raios de seu sol e nos alegra com o espetáculo de suas chuvas. Ninguém é dono do trigo que comemos, em forma de pão, em nosso café da manhã. Ninguém é dono da rua em que moramos nem das pessoas que convivem conosco. Ninguém é dono da educação e do companheirismo dos que nos cumprimentam, quando chegamos ao trabalho. E por aí vai. Na verdade, poderíamos nos perguntar: De que somos, realmente, donos? Nas mais das vezes, teremos que responder: Não somos donos nem do nosso nariz... Por que, por isso, orgulhar-nos tanto, mostrando-nos superiores aos que parecem ter menos do que nós? Podem, na verdade, ter menos bens materiais, menos estudos, menos posição social. Mas, quantas vezes, estas mesmas pessoas são infinitamente mais ricas do que nós em virtude, em bons modos, em simpatia! São mais lindas do que nós, são mais religiosas e merecedoras de mais aplausos do que nós!

Você pode ter muito dinheiro, fama e poder, você pode desfilar todo engravatado e com passo firme de dominador, você pode sentar-se na ponta da mesa e participar de decisões que mexerão com a vida dos outros, mas você não deixa de ser de um pobre mendigo. Você depende basicamente dos outros em tudo: para trabalhar, para se vestir, para se sentir seguro, para amar e ser amado. Para que se sinta bem, quantas vezes você necessita de um mísero comprimido! Acima de tudo, você não sentiria, sem os outros, pequenas e indispensáveis alegrias de viver. E se falássemos de coisas espirituais! A sua pobreza, no campo da espiritualidade, talvez seja avassaladora. Perdão se lhe digo que você, às vezes, passa a impressão de ser um pavão de penas multicoloridas, desfilando sua sem senhoria aos olhos admirados dos invejosos, enquanto você se esquece de olhar para seus horrorosos pés de barro. Quando você se encontra sozinho, longe dos olhares aparvalhados dos que o invejam, porque eles não veem o seu interior, sendo ele, quem sabe?, pobres como você, sobra-lhe apenas o espelho para denunciar suas vaidades. E, aí, onde acaba a encenação, surge sua real pobreza.

Olhe para a história e lembre-se de Roma, da Roma imperial dos Césares. Ninguém, possivelmente, em toda a história humana, apresentou maior esplendor e se comportou com maior arrogância. A senha “sou cidadão romano” era um passaporte cobiçado e garantia de privilégios e de impunidade. Poder, glória e... despudor! E, no entanto, o orgulho romano não resistiu ao tempo: sumiu tristemente e para sempre do mapa da história. Onde estão o pão e o circo patrocinados pelos imperadores e servidos, como anestésicos, aos seus cidadãos? Os grandes, os Césares, os pavões arrogantes de Roma, que criaram o “mare nostrum” e humilharam tantos povos, terminaram como pobres mendigos que a morte reduziu, inapelavelmente, a um punhado desprezível de pó. Séculos mais tarde, só para continuar neste voo rasante sobre a História, a Idade Média, que conheceu a grandeza singela de São Francisco de Assis e a eloquência exuberante de Santo Antônio de Lisboa e de Pádua, foi, ao mesmo tempo, uma idade de esplendor e de profundas misérias. Os papas se autoproclamavam senhores das “duas espadas”, da divina e da temporal, mandando e desmandando no destino das pessoas e dos povos. Ao lado deles, imperadores de grandes ou insignificantes reinos eram os senhores da guerra, que matavam o seu tempo matando e infelicitando seus súditos, na desesperada tentativa de garantir um poder que era desumano e falaz. Nenhum deles, papas ou imperadores, escreveu, com todo o esplendor de suas conquistas, seu nome na admiração da história humana.

Quando, no ano 2000, a revista Times perguntou ao mundo quem tinha sido “o homem do milênio” ou a estrela de maior brilho da nossa história, nos últimos 1000 anos, não foi eleito um General conquistador, um cientista renomado, um poeta ou um escritor de um grande e imortal obra, um Papa ou um Imperador, mas as pessoas apontaram e elegeram, encantadas, o “poverello”, o pobrezinho, a humilde criatura de Deus, aquele que se intitulava “menor e pecador”, São Francisco de Assis.

Pensemos um pouco sobre isso. Por que São Francisco de Assis foi apontado como mais o mais alto pico da paisagem humana em mil anos de história? O que ele fez de tão maravilhoso durante uma vida curta de apenas 45 anos? Ele beijou um leproso, que lhe causava repugnância, ele abandonou as riquezas da casa de seu pai e se casou com a “senhora e dona Pobreza”, ele amou o Homem das Dores, na pessoa de Jesus, e ele se fez irmão de todas as criaturas, desde o lobo de Gubbio até à irmã cotovia, do Sol e da Lua, da água e do fogo. Mendigo, pobre mendigo, como todos nós, São Francisco deixou-se encantar com a riqueza dos outros, de Deus e dos homens, das criaturas vivas e dos riachos cantantes e dos pessegueiros em flor. Foi, por isso, que um país, os Estados Unidos, de maioria protestante, o escolheu para ser o “homem do milênio”, reconhecendo nele o grande ideal de que é possível ser grande e inesquecível se nos tornamos irmãos uns dos outros e reconhecemos a Deus como nosso Pai e Senhor.

Não basta ter poder e exércitos, tronos e castelos, e ostentar uma coroa de ouro. A empregada de sua casa sabe que tudo isto não passa de falsos brilhos enganadores e perigosos de uma situação sem futuro, que não consegue esconder a raiz de nossa pobreza humana. Reis e imperadores, papas e soberanos são, finalmente, tão mendigos como os pobres de nossas ruas e praças. A verdadeira grandeza humana tem como fundamento a consciência de nossa pobreza e floresce em nossas muitas dependências. Somos todos, ricos ou pobres, reis ou súditos, radicalmente mendigos. Ter consciência desta verdade é o começo da verdadeira sabedoria. Tornamo-nos mestres da arte de viver, quando nos reconhecemos menores e pobres, dependentes e mendigos. Aí, então, a força da espiritualidade fará de nós a sua casa e nos coroará com uma auréola mais brilhante do que o ouro e mais transcendente do que qualquer trono.

Frei Neylor. J. Tonin
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net