Sábado, 16 de Dezembro de 2017

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Francisco, um Papa humano

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Frei Neylor Tonin - 30 de novembro de 2013 às 13:15
Osservatore Romano
Papa João Paulo II dá a benção ao então cardeal Bergoglio, hoje o Papa Franscisco

De qualquer pessoa, inclusive de nós mesmos, dá sempre para destacar algumas características marcantes. Algumas, no entanto, são mais marcantes do que as outras. Do Papa João Paulo I, exaltaram-se a simpatia, o sorriso aberto e a espontaneidade. De João Paulo II, a popularidade, os gestos teatrais e a resistência no sofrimento. De Bento XVI, a seriedade acadêmica, a nobreza e a coragem da renúncia. Do Papa Francisco, há muito para destacar, como a simplicidade franciscana de sua origem italiana (Bergoglio), a limpidez de sua vocação jesuítica e o amor pastoral de sua experiência portenha. Mas gostaria, hoje, de destacar a sua humanidade. Ele é, essencial e surpreendentemente, um Papa humano. E isso não é pouco. É o seu apanágio, sua cruz e glória.
 
Que Papa já disse isso? “Quem é da luz não mostra sua religião, e sim, seu amor”. Que Papa afirmou que os casais, para serem felizes, devem aprender e atualizar três palavrinhas: Por favor, Obrigado e Desculpa? Todos os Papas, e este também, garantiram que “a verdade não ameaça a liberdade” e que todos devemos alimentar “dignidade, esperança e coragem”. E todos sempre afirmaram, e este proclamou em plena Praça São Pedro, para mais de 100 mil pessoas, que “fé e violência são incompatíveis” e que “não se pode anunciar o evangelho de Jesus sem o testemunho concreto da vida”. Disse ainda: “Os santos nunca foram hipócritas, nunca odiaram, nem acusaram os outros, mas serviram os necessitados e seguiram, mesmo com sacrifícios, alegremente, a Cristo”.  Ele foi visitar a carpintaria, a oficina dos ferreiros do Vaticano. Um Papa, como São José, na carpintaria? Afirmou que não basta dar esmolas. É preciso olhar nos olhos dos pobres e encontrar-se com eles. Os padres devem dar testemunho de pobreza. O povo se sente magoado, garantiu, quando os padres se mostram apegados ao dinheiro”. Afirmou que mora no Santa Marta, come no refeitório comum, porque não pode viver fechado e gosta de companhia.
 
Poderíamos citar à saciedade outras palavras maravilhosas deste Papa que é, no momento, o único líder mundial inconteste, mas destacaremos apenas uma de suas atitudes que revela toda a sua humanidade. É o caso conhecido como Naomi, no qual ele pede que ninguém permaneça árido e insensível diante da dor humana. Naomi é uma menininha de apenas 16 meses de vida, nascida em Chieti, que sofre de uma grave e terminal amiotrofia muscular espinhal (AME). Quando o Papa soube deste caso desolador, telefonou para seus pais e pediu ao Arcebispo Krajewski que a visitasse em seu nome. Dias depois, o pai da menina telefonava para o Vaticano para anunciar que o fim se aproximava. O Papa pediu que a trouxessem para Roma e, em meio a 100 mil pessoas, a abraçou ternamente, acariciou-a e beijou-a comovido, comovendo aos presentes que foram às lágrimas, porque o caso de Noemi se tornou assunto de toda a Itália e do Mundo. O pai tinha escrito ao Papa apelando que nunca abandonasse Noemi. “Um Estado, disse o pai, não pode decidir se devemos viver ou morrer. Peço-lhe isso com humildade, caridade e amor”. O Papa colocou o seu Arcebispo a serviço da família. E todos se perguntam: Que Chefe de Estado e do Mundo perderia seu tempo com um caso periférico como o de Noemi? Só mesmo um homem chamado Francisco que, providencialmente, é Papa. Um Papa humano para o qual a pessoa vale, não porque vai à Igreja, mas porque é criatura de Deus. A grande Igreja de Deus é a vida. Salvá-la, reverenciá-la, amá-la é prestar o melhor culto ao Deus que é “o grande amigo da vida” (Livro da Sabedoria 11,22).
 
Advento: Ano Novo


 
Nesse domingo, começa o novo ano da Igreja. Começa com uma súplica enternecedora: “Quando virá, Senhor, o dia – quando virá o Salvador? - Pondo-se termo à profecia – que nos promete um Redentor!” Assim se cantava antigamente, era um canto dolente e de melodia piedoso. Atualmente, as palavras são diferentes, mas o sentido é o mesmo: “Ouve-se da terra um grito – do povo um grande clamor: - Senhor, abre os céus, - que as nuvens chovam o Salvador!” O Advento é um tempo em que se mesclam dois sentimentos: o da esperança, que suplica, e o da impotência, que se ressente e grita. Em sua pobreza, o homem nunca deixou de olhar para o céu e de suplicar por ajuda. Isso aconteceu na escravidão do Egito e isso acontece nas casas de todos os pobres, seja dos pobres de necessidades materiais, seja dos pobres de sofrimentos afetivos e espirituais. Uns e outros são pobres na esperança de um Salvador.
 
O Advento, para a espiritualidade, é um tempo bonito que não tem a tragédia da Semana Santa nem a rotina dos muitos domingos pós-Pentecostes. É um tempo de expectativa, como a da mulher que está gestando e sabe que seu filhinho, mais dia, menos dia, vai nascer, mesmo que entre as dores do parto. No fim da caminhada, haverá um presépio e uma estrela brilhando sobre a estrebaria, enquanto os anjos estarão cantando nas campinas de Belém. O quadro é edílico, com certeza, mas esta é a tônica das esperanças humanas. Amanhã, nossas orações serão atendidas. Deus não falha. Ele sabe do que precisamos. E Ele virá, descerá sobre a terra, tendo ouvido o clamor de seu povo. Pode tardar, mas não falhará. No Advento, teremos quatro semanas para apresentar a Deus nossas necessidades e alimentar nossas esperanças. Marchemos em direção ao presépio. Lá encontraremos um recém nascido indefeso, mas divino. Em torno dele, haverá lugar para uma mãe virgem, um pai zeloso, bois e jumentinhos, Reis Magos, Pastores e Anjos. Haverá lugar, também, para nós.
 

 
“Caros amigos”, disse o Papa Francisco, aos Sócios do Círculo de São Pedro, “vós vos sentis enviados para junto das irmãs e dos irmãos mais pobres, frágeis e marginalizados. E agir assim enquanto batizados, sentindo isso como uma tarefa que vos compete como fiéis leigos. E não como um ministério extraordinário ou fortuito, mas fundamental, no qual a Igreja se identifica, praticando-o quotidianamente. Cada dia apresentam-se situações que nos interpelam. Todos os dias cada um de nós é chamado a ser consolador, a fazer-se instrumento humilde, mas generoso da Providência de Deus e de sua bondade misericordiosa, do seu amor que compreende e se compadece, da sua consolação que anima e encoraja. Cada dia todos nós somos chamados a ser “a carícia de Deus” para quantos esqueceram os primeiros afagos e que, talvez, nunca receberam, em sua vida, uma carícia. Para a Santa Sé e para Roma, vós representais aqui a carícia de Deus!”  Papa Francisco, 31 de outubro na Sala Clementina, Vaticano
 
Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net

De Coração Aberto - Consciência Negra

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Frei Neylor Tonin - 23 de novembro de 2013 às 14:17
divulgação

Ora, direis, consciência não tem cor, e estais cobertos de razão. Cor tem a pele, os olhos, os cabelos, os lábios e as unhas. Mas como o amor é vermelho como a púrpura, a pureza é branca como a neve, assim a festa da coragem e do heroísmo, da igualdade e da liberdade de ZUMBI e de todo um povo pode ter a sua cor. Hoje, ela é negra. E nós a aplaudimos e nos irmanamos com ela. Na admiração dos fatos, temos todos CONSCIÊNCIA NEGRA. Reconhecemos os que escreveram a gloriosa página DOS PALMARES. Foram 20, 30 mil escravos negros, que resistiram por quase 100 anos à desumanidade da escravidão. Lutaram, morreram e se eternizaram. Esses negros e seu herói maior têm a nossa reverência. Que eles, onde estiverem, perdoem, como diz o poeta CASTRO ALVES, “tanta infâmia e cobardia”. Em respeito à sua dor, e para tornar mais NEGRA a CONSCIÊNCIA dos brasileiros de hoje, transcrevo abaixo parte do poema “Navio Negreiro” do vate baiano (1847-1871), escrito quando ele tinha apenas 22 anos de idade.

“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
se é loucura... se é verdade
tanto horror  perante os céus...
Ó mar! Por que não apagas
co’a esponja de tuas vagas
do teu manto este borrão?...
Astros! Noite! Tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

E existe um povo que a bandeira empresta
p’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
e deixa-a transformar-se nessa festa
em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta,
que impudente na gávea tripudia?!...
Silêncio!... Musa! Chora, chora tanto,
que o pavilhão se lave no teu pranto!...

Auriverde pendão de minha terra,
que a brisa do Brasil beija e balança,
estandarte que a luz do sol encerra,
as promessas divinas da esperança...
Tu, que da liberdade após a guerra
foste hasteado dos heróis na lança,
antes te houvessem roto na batalha
que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo,
o trilho que Colombo abriu na vaga,
como um íris no pélago profundo!
...Mas é infâmia demais... Da etérea plaga
levantai-vos, heróis, do Novo Mundo...
Andrada! Arranca esse pendão dos ares!
Colombo! Fecha as portas dos teus mares!”

Cristo Rei

O Ano Litúrgico da Igreja se encerra, neste domingo, com a festa de Cristo Rei. O apocalipse ficou para trás. Agora, Cristo se aproxima, sobre as nuvens do céu, como Rei. Vem para o Juízo Final, para separar as ovelhas dos bodes, os bons dos maus, os bem-aventurados dos condenados ao fogo da Geena. Ele é o Senhor dos vivos e dos mortos. São Paulo, na Carta aos Colossenses, apresenta Cristo como o primogênito de todas as criaturas. Ele é, por isso, Rei por origem. “Ele é a imagem do Deus invisível. Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis. Tudo foi criado por Ele e para Ele. Ele é antes de tudo e tudo subsiste nele” (1,15ss). Mas Ele é também Rei por aquisição. “Ele é o princípio, o primogênito dos mortos, para ocupar em tudo o primeiro lugar. Foi do agrado de Deus fazer habitar nele toda a plenitude e por Ele reconciliar tudo consigo mesmo, pacificando pelo sangue de sua cruz todas as coisas, tanto as da terra como as do céu” (1,17ss). Tudo tem a marca de Cristo. As criaturas inanimadas são “crísticas”, e as que o reconhecem ou vivem, mesmo sem ter consciência, segundo seus preceitos são chamadas de “cristãs”. De todas, Ele é Rei e Senhor. Ninguém existe senão por causa dele e ninguém se salva senão graças a Ele. É este o sentido maior da festa de Cristo Rei, que a fé professa e a liturgia celebra. Há um conhecimento explícito de Cristo nos cristãos e há uma identidade cristã naqueles que, mesmo não o conhecendo, lhe são fiéis implicitamente. Assim se pode dizer que fora da Igreja há gente mais cristã, por seu comportamento evangélico, do que dentro da Igreja, por seu juramento frouxo. De uns e outros ele é Rei, para sua salvação ou perdição. Só no Juízo Final, saberemos quem foi ovelha, quem foi bode. Para uns Ele dirá: “Vinde, benditos do meu Pai!” Para os outros: “Afastai-vos de mim para o fogo do inferno!”

“Ajuda-me a dizer a verdade diante dos fortes e a não dizer mentiras para ganhar o aplauso dos débeis. Se me dás fortuna, não me tires a razão; se me dás êxito, não me tires a humildade; se me dás humildade, não me tires a dignidade. Ajuda-me sempre a ver a outra face da medalha; não me deixes culpar de traição a outrem por não pensar como eu. Ensina-me a querer aos outros como a mim mesmo. Não me deixes cair no orgulho se triunfo, nem no desespero se fracasso. Mas, antes, recorda-me que o fracasso é a experiência que precede o triunfo. Se me tiras o êxito, deixa-me forças para aprender com o fracasso. Se eu ofender a alguém, dá-me energia para pedir desculpas e se alguém me ofender, dá-me energia para perdoar. Senhor, se eu me esquecer de ti, nunca te esqueças de mim.”

Mahatma Gandhi, 1869-1948, líder pacifista indiano

Frei Neylor, irmão menor e pecador
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