Sábado, 21 de Outubro de 2017

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Viver encantado

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Frei Neylor Tonin - 25 de agosto de 2013 às 14:28
reprodução

A dificuldade maior não é optar entre o bem e o mal, mas seguir, com todo o coração, o que se escolheu. Os caminhos humanos e espirituais são feitos de intensidades e de provérbios, como “totalmente” e “plenamente”. As pessoas, normalmente, sabem o que lhes convêm, mas demonstram pouca coragem em se definir por suas eleições. A vida, na verdade, não é uma brincadeira para crianças retardadas e mal crescidas, e sim uma fascinante aventura que cobra dos adultos o empenho de todas as suas forças, mesmo quando tenham que rilhar os dentes e não descer da cruz em que se encontram pregadas. Infelizmente, nem todas as pessoas crescem harmoniosamente e muitas se encontram mal preparadas para a arte de viver em plenitude. Ou seu espírito é fraco e, por isto, não responde devidamente aos desafios, ou seu psiquismo é conflituoso, levando-as a decisões equivocadas quando seu interior sonha por voos mais altos.

Há pessoas pascais, que têm uma grande verdade, mas se mostram medrosas e se refugiam, confortavelmente, em cenáculos seguros mas estéreis, e há pessoas pentecostais que vivem de coração aberto e saem em praça pública para afirmar a beleza da vida, as excelências  de um caráter sem fissuras e as virtudes do espírito.

Não gosto de fazer acusações e muito menos condenar. Como psicólogo e estudioso da espiritualidade, sirvo-me e deixo-me iluminar pelos mestres espirituais do presente e do passado e pelos  ensinamentos e descobertas da psicologia para ajudar e animar os que sonham ser “plenamente humanos” e desejam estar “totalmente vivos”. Mais do que uma análise, alimento, em minha missão de homem e sacerdote, um itinerário em busca duma possível e desejada plenitude.

Trecho do livro

Num livro que escrevi (“Para uma Espiritualidade da Vida”), digo: A pessoa quer e aspira, antes de mais nada e acima de tudo, por viver. Tal como o Ser Supremo, o homem é um “amante da vida” (Sb 11,26) e sonha com uma vida em plenitude. É nisto que se revela sua verdadeira imagem e semelhança com o Deus da vida. É aqui que pulsa o melhor do mistério humano em seu mais doloroso e grandioso paradoxo. Aspirando ser imortal, a pessoa reconhece, na raiz de sua história, o gérmen da morte que lhe corrói a vida. Para ser realista e verdadeiro, não pode viver desancorado desta dupla contingência: é vida e deseja viver; é morte e terá que morrer. É nisto que reside a beleza da vida e sua tragédia, tornando-se o homem para si mesmo seu maior desafio e tendo na vida sua mais empolgante aventura. A vida não nos pertence. Somos apenas a moldura onde ela acontece. Outros são o criador e os pintores de nossa vida. Deixar-se criar e pintar por uns e outros, no temor e com tremor, é que nos fará mais espirituais e menos melancólicos e frustrados. De nós pede a vida apenas a complementação do todo: que a amemos e a vivamos com todo o coração e encantados com seu mistério.

Espaços da liberdade


Tanto a Espiritualidade quanto a Psicologia defendem e proclamam que amar é ampliar os espaços de liberdade da pessoa amada. Por que é tão complicado abrir espaços de liberdade para as pessoas a quem amamos? Acredito que, no fundo, temos medo de nós mesmos e por isso não confiamos nos outros, não lhes concedemos os ditos espaços. Achamos que eles não saberão ser fiéis nos relacionamentos que têm, porque tememos as próprias infidelidades. As inseguranças próprias nos atormentam e nos levam a atormentar os outros. Já conheci tantas pessoas, especialmente mulheres, que eram alegres, participativas, simpáticas, efusivas, risonhas, antes de se casarem. Uma vez casadas, começaram a viver cheias de dedos, de cuidados, com medo das desconfianças de seus maridos. Ficaram diferentes... para pior. Perderam o viço da própria vida e personalidade. Ficaram com os espaços de sua liberdade encolhidos. Que pena! Se pudesse fazer um apelo: deixemos ou permitamos que os outros, as pessoas amadas, sejam livres. Respeitemos os espaços de liberdade da qual elas necessitam para serem felizes e elas mesmas. Que elas voltem a sorrir e a embelezar a vida, porque é isso que faz com que um homem se case com uma mulher: porque achou graça nela. Que nossos medos não lhe tirem essa graça.



PLAC! PLAC! para os pereginos da JMJ que deixaram 1,8 bilhão de Reais nos cofres da cidade do Rio, para o gáudio de seus comerciantes.
PLAC! PLAC! para a Ordem de São Bento que deu para a Igreja 23 Papas, 5 mil Bispos e mais de 3 mil santos canonizados.
PLAC! PLAC! para o Papa Francisco e o Governo do Vaticano que estão endurecendo contra os crimes de abuso sexual envolvendo menores.

UUUH! UUUH! para Políticos e Partidos, useiros e vezeiros em prometer muito e cumprir quase nada.
UUUH! UUUH! para os municípios brasileiros (73,7%) que desviam os fundos destinados à Educação e à Saúde.
UUUH! UUUH! para as manifestações racistas de certas forças políticas italianas contra Cecile Kyenge, a primeira Ministra negra na história da daquele país.

MEU DEUS!
O brasileiro gasta, por dia, 2 horas e 35 minutos diante da televisão e apenas 6 minutos com a leitura de algum livro.
MEU DEUS! Italianos, americanos e brasileiros, nesta ordem, são os que mais compram apartamentos de luxo em Paris.
MEU DEUS! 1677 funcionários da Câmara, em Brasília, recebem mais do que o salário-teto de R$ 28.000 e 22, mais de R$ 48.000.

Leitores

A jovem professora Inês Ferreira ecoou a contribuição Jardineiros da Esperança, do domingo passado, e se lembrou do pensamento de Dom Hélder Câmara: “Esperança é crer na aventura do amor, apostar nos homens e pular no escuro, confiando em Deus”. Obrigado, Professora. E salve o grande e saudoso Arcebispo Dom Hélder!



“O ser humano é do tamanho do seu sonho”.
Fernando Pessoa, 1888-1935, poeta e escritor português

Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net

De Coração Aberto - Jardineiros da esperança

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Frei Neylor Tonin - 18 de agosto de 2013 às 14:39
Marcello Dias / Agência O Repórter

Escrevo pensando nos jovens que, há pouco, encheram as ruas do Rio de Janeiro. Em mais de uma oportunidade, o Papa Francisco lhes pediu que não deixassem apagar a chama da esperança. O velho mestre Tristão de Athayde disse, ao completar 80 anos, que haveria duas coisas a lamentar: um jovem sem esperança (fogo) e um velho sem ética. Dizia também, dirigindo-se aos jovens, entre os quais me incluía: “Coloquem fogo na vida! Mas permitam que nós adultos coloquemos um pouco de água onde vocês, jovens, colocarem fogo demais”. Nossa Igreja e sociedades estão, em parte, morrendo de frio, muito porque os jovens já não são o fogo que deveriam ser, porque deixarem de ser os jardineiros da esperança..

Esperança, dom e graça

Como espaço da esperança, o ser humano é um agraciado. O ser humano foi criado cheio de esperanças. Nosso ser vive de esperanças e, sem elas, não teríamos o dia de amanhã. Viver sem esperanças seria deixar de ser um jardim florido de sonhos para tornar-se um deserto desesperador e inabitável. Em termos existenciais, a esperança é mais importante do que a fé e a caridade, pois quem não espera não consegue nem crer nem amar.

Fé e esperança

 “A esperança não engana, diz São Paulo, pois o amor de Deus se derramou em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5,5). Podemos, por isso, “esperar contra toda esperança” (4,18), mesmo não entendendo as linhas tortas da história e não tendo respostas para os porquês de nossas dúvidas humanas. Enquanto a fé diz “sim”, o cristão é “alegre na esperança, paciente no sofrimento e perseverante na oração” (Rm 12,12).

Apanágio humano

Precisamos urgentemente tornar-nos jardineiros da esperança, sem medo, sem desconfianças, sem condenações. Nosso apanágio humano e cristão é a esperança. Por um lado, damo-nos conta da existência do joio no campo da vida, mas, por outro, não podemos cair no desespero, na ansiedade e na impaciência. Convivendo bem com o Mal, renunciamos à vitória apressada do Bem. Dessa forma, com esperança, queremos ser da vida, de todas as vidas, dia após dia, bons pastores, ardentes profetas e encantados poetas.

Céu e inferno

O escritor existencialista francês, Jean-Paul Sartre, asseverou que “o inferno são os outros”. Na esperança, eles são companheiros e agentes do céu. Neles e com eles nos perdemos e morremos para nos encontrar e viver. Eles são a pedra de toque do amor verdadeiro a Deus e, em sua escola, aprendemos que não dá para amar sem renunciar. Amar é renunciar: esta é a lição da vida de Jesus. Cristo, para fazer a vontade do Pai, fez-se “obediente até à morte e morte na cruz”. Assumiu o rosto mais disforme da vida, para resgatar as profundidades mais abjetas da existência. Seu endereço foram a casa dos “pobres, doentes e pecadores”. São eles os nossos outros, o nosso céu e/ou o nosso inferno. Neles é que resplandece e se testa a esperança. Sem eles, poderíamos construir um céu, que não seria, no entanto, o céu de Deus. “Viver na esperança, ensinou o grande teólogo alemão J. Moltmann, quer dizer capacitar-nos para amar a vida não-amada, renegada”.

Cristo, nossa esperança


Cristo é a nossa Fé, o nosso Amor e a nossa Esperança. Sua história foi, aparente e materialmente, um rotundo fracasso. Fez o bem e foi condenado como malfeitor. Esquivava-se das autoridades e as execrava, defendendo o povo, servindo-o, curando-o, alimentando-o, e foi condenado pelos poderosos e apupado pelo povo que referendou a Barrabás. Pregou o Reino dos Céus e experimentou, no fracasso da cruz, o descrédito de suas promessas. Tratava a Deus como Pai e sentiu-se abandonado por Ele, apesar de seus gritos, suor e sangue. Até hoje, conservamos na memória o drama de sua cruz. A cruz está no alto de nossas igrejas. No mistério trágico de amor da Cruz, Ele se fez a nossa esperança de salvação. Não dá para viver sem Ele, sem a glória das glórias que é a Cruz.. Sem Ele, nosso destino é o cemitério. É nele que repousa o futuro da vida, a vitória do Bem, a bem-aventurança da paz e esperamos o abraço de Deus.

Palavras de uma mestra

Eis o conselho de Gabriela Mistral, poeta chilena e Nobel de Literatura, aos jovens de seu país: “Não deixem arrefecer suas esperanças; sigam a inspiração de seus audazes sonhos. A semente da esperança foi lançada no fundo do seu coração: façam-na crescer com paciência e alegria. Deixem-na amadurecer e frutificar, pois só colhe quem é perseverante. O impaciente, o frustrado, acaba por desanimar. Deus está em suas vidas, na sua escuridão e na sua luz, nos cumes de suas majestosas montanhas, nos altiplanos e vales de sua terra. Confiem nele; contem sempre com Ele. Ele os tornará fortes, dar-lhes-á asas de aves migratórias e, talvez, a potência do condor. A autêntica grandeza não é complicada, é simples. Não tenham medo de voltar o coração e os olhos para o impossível: pois só assim o possível se torna realidade”.

Disse-me, certa feita, um velho e vivido senhor colombiano: “Não deixe de pregar sempre e de escrever sobre a esperança. Precisamos de homens que sejam jardineiros da esperança. Sem ela, a vida perderia sua graça, aliás, sem ela nos sobraria apenas o mais trágico desespero”. Que estas linhas sejam em obediência a ele.

Leitores

Maria Letícia Rick, Glória Souza, Inês Ferreira, Josemary Lobato Esteves escrevem ecoando minhas últimas contribuições dominicais como “lúcidas, lindas e maravilhosas”. Escrevo pensando em vocês e nos Leitores que, eventualmente, me dão o favor de sua leitura. Ninguém vive só para si. Muito menos, um escritor pobre e pecador.

Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net