Sábado, 16 de Dezembro de 2017

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Seis horas com o Papa Francisco

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Frei Neylor Tonin - 29 de setembro de 2013 às 11:45
Foto: Agência Ansa

No domingo passado, comentamos a entrevista dada pelo Papa Francisco à revista jesuítica Civiltà Cattolica. Neste domingo, vamos apresentá-la em seus principais tópicos. Imagino que não todos puderam ler as 29 páginas da revista que cobriram mais de seis horas de conversações. A entrevista não tem a força de um documento papal, mas é significativa por seus conteúdos teológicos e, acima de tudo, pastorais. Mais do que como Papa, Francisco expôs sua alma de pastor. A entrevista tem seus limites, colocados pela estreiteza dos assuntos propostos pelo entrevistador. Mesmo assim, seu conteúdo é digno de nota e, creio, dever ser levado ao conhecimento dos que seguem os primeiros passos do Papa ítalo-argentino Jorge Mario Bergoglio.

ANTES DA ELEIÇÃO, revela o em seguida eleito Papa que sentiu uma grande paz, “uma profunda e inexplicável paz e consolação interior, juntamente com uma escuridão total e uma obscuridade profunda”. “Estes sentimentos me acompanharam até à eleição”. O entrevistador revela que “falar com o Papa Francisco é, realmente, uma espécie de fluxo vulcânico de ideias que se atam entre si”.


Foto: Getty Images

DEFINIÇÃO:
Perguntado quem era Jorge Mario Bergoglio, respondeu após um momento de hesitação: “Não sei qual possa ser a resposta mais correta. Eu sou um pecador. Esta é a melhor definição. E não é um modo de dizer, um gênero literário. Sou um pecador. Sou um pecador para quem o Senhor olhou. Sou alguém que é olhado pelo Senhor”.

COMUNIDADE
: Afirma que se tornou jesuíta para poder viver em comunidade. “Para mim, uma coisa é verdadeiramente fundamental, a comunidade. Preciso viver a minha vida junto com os outros”.

JESUÍTA: Confessa que sempre se impressionou com a frase de Santo Inácio: “Não estar constrangido pelo máximo e, no entanto, estar imediatamente contido no mínimo: isso é divino”. E emendou: “É fazer as coisas pequenas de cada dia com coração grande e aberto a Deus e aos outros. É valorizar as coisas pequenas no interior dos grandes horizontes, os do Reino de Deus”.


Foto: Getty Images

DISCERNIMENTO: Segundo ele, esta é uma das virtudes apregoadas por Santo Inácio. “O discernimento se realiza sempre na presença do Senhor, vendo os sinais, auscultando as coisas que acontecem, o sentir das pessoas, especialmente os pobres. As minhas escolhas, mesmo aquelas ligada à vida cotidiana, como usar um automóvel modesto, estão ligadas a um discernimento espiritual que responde a uma exigência que nasce das coisas, das pessoas, da leitura dos sinais dos tempos. O discernimento no Senhor guia-me no meu modo de governar”.

DEFEITOS: Lembrando-se de seu governo como Superior dos jesuítas, aos 36 anos, confessou: “O meu governo, no início, tinha muitos defeitos. Era preciso enfrentar situações difíceis e eu tomava as decisões de modo brusco e individualista. O meu modo autoritário e rápido de tomar decisões levou-me a ter sérios problemas e a ser acusado de ser ultraconservador, mas nunca fui da direita. Foi o meu modo autoritário de tomar decisões que criou problemas”. “Com o tempo, aprendi muitas coisas. O Senhor permitiu esta pedagogia de governo, mesmo através dos meus defeitos e dos meus pecados”.


Foto: Marcello Dias / Agência O Repórter

IGREJA 1: “A imagem da Igreja de que gosto é a do povo santo e fiel a Deus. É a definição que eu uso mais vezes. A pertença a um povo tem um forte valor teológico: Deus na história da salvação salvou um povo. Não existe plena identidade sem pertença a um povo. Ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos considerando a complexa trama das relações interpessoais que se realizam na comunidade humana. Deus entra na dinâmica do povo”.

IGREJA 2: “A Igreja com a qual devemos ‘sentir’ é a casa de todos, não uma pequena capela que só pode conter um grupinho de pessoas selecionadas. Não devemos reduzir o seio da Igreja universal a um ninho protetor da nossa mediocridade. É a Igreja-Mãe. E a Igreja é fecunda, deve sê-lo”.

IGREJA 3: “Vejo com clareza que aquilo que a Igreja mais precisa, hoje, é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido se tem colesterol ou açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de tudo o resto. Curar as feridas! Curar as feridas!” “A Igreja, por vezes, encerrou-se em pequenas coisas, em pequenos preceitos. O mais importante é o primeiro anúncio: Jesus Cristo salvou-te”.


Foto: Osservatore Romano

MINISTROS: “Os ministros da Igreja devem ser misericordiosos, tomar a seu cargo as pessoas, acompanhando-as como o bom samaritano que lava, limpa, levanta o seu próximo. Isso é o Evangelho puro. Deus é maior que o pecado. As reformas organizativas e estruturas são secundárias, isto é, vêm depois. A primeira reforma que deve ser feita é a da atitude. Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coação das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites na sua escuridão, sem perder-se. O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou clérigos de Estado. Os Bispos, em particular, devem ser capazes de suportar com paciência os passos de Deus no seu povo, de tal modo que ninguém fique para trás. Em vez de ser apenas uma Igreja que acolhe e recebe, tendo as portas abertas, procuramos mesmo ser uma Igreja que encontra novos caminhos, que é capaz de sair de si mesma e ir ao encontro de quem não a frequenta, de quem a abandonou ou lhe é indiferente. É necessário audácia e coragem”.

ANUNCIO ESSENCIAL: “Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso de métodos contraceptivos. Isso não é possível. Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. O anúncio de caráter missionário concentra-se no essencial, no necessário, que é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração”. “O anúncio do amor salvífico de Deus precede a obrigação moral e religiosa”.

MULHER:
“É necessário ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja. Temo a solução do ‘machismo de saias’. As mulheres têm vindo a colocar perguntas profundas que devem ser tratadas. A Igreja não pode ser ela mesma sem a mulher e o seu papel. A mulher, para a Igreja, é indispensável. Maria, uma mulher, é mais importante que os Bispos. Digo isso porque não se deve confundir a função com a dignidade”.

VATICANO II: “O Vaticano II foi uma releitura do Evangelho à luz da cultura contemporânea. Produziu um movimento de renovação que vem simplesmente do evangelho. Os frutos são enormes. Uma coisa é clara: a dinâmica de leitura do Evangelho no hoje, que é própria do Concílio, é absolutamente irreversível”.


Foto: Marcello Dias / Agência O Repórter

PESSOA HUMANA: “Tenho uma certeza dogmática: Deus está na vida de cada pessoa. Deus está na vida de cada um. Mesmo se a vida de uma pessoa foi um desastre, se se encontra destruída pelos vícios, pelas drogas ou por qualquer outra coisa, Deus está na sua vida. Pode-se e deve-se procurar na vida humana. Mesmo se a vida de uma pessoa é um terreno cheio de espinhos e ervas daninhas, há sempre um espaço onde a semente boa pode crescer. É preciso confiar em Deus”.

DOMESTICAÇÃO DA FÉ: O Papa não quer “domesticar as fronteiras”. Diz: “A nossa fé não é uma fé-laboratório, mas uma fé-caminho, uma fé histórica. Deus revelou-se como História, não como compêndio de verdades abstratas. Tenho medo dos laboratórios, porque no laboratório pegam-se nos problemas e levam-se para a própria casa para domesticá-los, para os envernizar, fora do seu contexto. Não é preciso levar as fronteiras para casa, mas viver na fronteira e ser audazes. Domesticar a fronteira significa falar de uma posição distante, fechar-se nos laboratórios. São coisas úteis, mas a reflexão para nós deve ser sempre partir da experiência”.

SANTIDADE: “Vejo a santidade no povo de Deus paciente: uma mulher que cria os filhos, um homem que trabalha para levar o pão para casa, os doentes, os sacerdotes idosos com tantas feridas, mas com um sorriso por terem servido o Senhor, as Irmãs que trabalham tanto e vivem uma santidade escondida. Esta é para mim a santidade comum”.


Foto: Osservatore Romano

ORAÇÃO: Perguntado como e quando reza, o Papa revelou: “Rezo o Ofício Divino (oração do Breviário rezado por monges e padres) todas as manhãs. Gosto de rezar os Salmos. Depois, a seguir, celebro a Missa. Rezo o Rosário. O que verdadeiramente prefiro é a adoração vespertina, mesmo quando me distraio e penso em outra coisa ou mesmo quando adormeço rezando. Assim, à tarde, entre as sete e as oito, estou diante do Santíssimo durante uma hora, em adoração. Mas também rezo mentalmente quando espero no dentista ou noutros momentos do dia”.

QUERIDOS LEITORES: Não foi fácil resumir 29 páginas em apenas três de computador. Espero ter sido fiel aos principais conteúdos da entrevista concedida, conteúdos que possam interessar-lhes. Em minha opinião, o Papa foi muito corajoso, falou de coração aberto, há de receber muitas críticas, mas também merecerá muitos elogios. Ele baixou a guarda, se fez vulnerável, não falou, essencialmente, como teólogo, mas como pastor. Este é o nosso Papa, o PAPA FRANCISCO, ao qual tributamos obediência e por quem rezamos para que Deus o conserve para Sua glória e para o bem da nossa querida Igreja.

Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net

De Coração Aberto - Entrevista com o Papa Francisco

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Frei Neylor Tonin - 22 de setembro de 2013 às 15:55
Marcello Dias / Agência O Repórter

O mais nefasto adversário duma religião não é o ateu ou o não-crente, mas o fanático empedernido e intolerante. Um conhecido intelectual paulista e “defensor” da Igreja Católica referiu-se à entrevista do Papa Francisco, à revista italiana Civiltà Cattolica, como inútil, equivocada e maléfica. A entrevista ocupou 29 páginas da revista, na qual o Papa não fugiu a temas polêmicos, mas traçou as prioridades de sua ação pastoral e revelou pormenores sobre sua vida pessoal. Perguntado sobre quem era Jorge Mario Bergoglio, não hesitou: “Sou um pecador. Essa é a definição mais exata, não é uma figura de linguagem”. Na contraluz desta aceitação, surgem as figuras dos fariseus do tempo de Jesus, que se achavam justos, e dos fanáticos de todos os tempos, mais prontos em jogar pedras nos pecadores sinceros do que em se reconhecerem faltosos e pecadores. O fanático não é fraco, é duro e condenatório. Não é um arauto da Boa Nova, é um soberbo incriminador sem misericórdia. O Papa se apresenta, na entrevista, como a antítese desta postura. Prega a misericórdia e pensa numa Igreja de portas abertas para todas as ovelhas e homens de boa vontade, amados por Deus.
 
A revista Civiltà Cattolica não é um órgão oficial da Igreja de Roma. Fundada em 1850, pelos Jesuítas, em Nápoles, é por eles editada, ininterruptamente, até hoje. A entrevista do Papa saiu em seu número 3918. A revista tem como ideal “promover a civilização católica” e foi criada para enfrentar, em sua origem, os liberais e os maçons. Recebe o aval da Santa Sé, sendo vista por isso com extrema reverência dentro do universo católico. Os artigos são assinados sob a aprovação de um Conselho Editor.
 
Os fanáticos, por sua formação psíquica intolerante, gostam de temas polêmicos, não para aprenderem mais e se deixarem iluminar e alimentar, mas para poderem atiçar suas condenações apodíticas e apressadas. A entrevista com o Papa Francisco não foi de origem doutrinária, mas pastoral. Suas posições doutrinárias são bem conhecidas, desde quando era Cardeal de Buenos Aires e enfrentou a “troupe” Kirchner. Se pudéssemos dar a tônica da entrevista, nas próprias palavras do Papa, estamparíamos o que ele disse: “Os ministros da Igreja devem ter como primeira missão levar uma palavra de misericórdia, a mensagem de salvação de Jesus Cristo. A proclamação do amor redentor de Deus vem antes de imperativos morais e religiosos”.
 
Na lucidez pastoral desta sua assertiva, emendou, referindo-se a temas polêmicos: “Sabemos qual a posição da Igreja e eu sou filho da Igreja, mas não é preciso continuarmos a falar disso assim”. “Não é necessário para os católicos focalizarem-se em assuntos que dividem: gays, abortos, casamento de homossexuais”. Em outras palavras, o Papa não deseja uma Igreja obcecada, “dos que procuram soluções disciplinares que dão excessiva importância em resguardar a doutrina e estão obcecados em trazer de volta um passado que já vai longe e é estático e repressivo”. Judiciosamente afirmou o teólogo Francisco Borba, diretor do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP: “Ele quis dizer: é mais importante o gay amar a Deus do que a Igreja condenar sua opção sexual”. Para Edson Luiz Samuel, doutor em Direito Canônico, o Papa repete e reafirma a antiga distinção entre erro e errante: “O erro é combatido, mas o errante é acolhido. A Igreja nunca vai mudar em relação ao aborto e ao casamento gay. Mas pode, e Francisco claramente quer isso, aproximar-se do ser humano”.
 
Para encerrar, deixemos o Papa falar: “Não podemos reduzir o seio da Igreja a um ninho protetor para a nossa mediocridade. Temos que encontrar um novo equilíbrio, ou o edifício moral da Igreja vai cair como um castelo de cartas, perdendo o frescor e o perfume do Evangelho”. Isso, senhor intelectual, é um lúcido posicionamento pastoral. As suas raivas amedrontadas apenas denotam, talvez, ranços farisaicos “estáticos e repressivos”.
 

 
PLAC! PLAC! para o Papa Francisco que garantiu: “A proclamação do amor de Deus vem antes de imperativos morais e religiosos”.
PLAC! PLAC! para o Papa Francisco que afirmou: “Não podemos reduzir o seio da Igreja a um ninho protetor da nossa mediocidade”.
PLAC! PLAC! para o Papa Francisco que vê a Igreja “com capacidade de curar e de dar calor aos corações dos fiéis”. Ela é como um hospital após uma batalha. “As pessoas devem ser atendidas”.
 
UUUH! UUUH! para os espancamentos de crianças (68%) por pais e mães em favelas da cidade do Rio.
UUUH! UUUH! para a Síria que bombardeia hospitais como tática de guerra, segundo Relatório da ONU.
UUUH! UUUH! para o desbragado rei da Suazilândia, Mswati III, 45 anos, que está casado com 14 mulheres.
 
MEU DEUS! Espionar outros países não é crime. Crime é divulgar o nome de quem está espionando.
MEU DEUS! O físico inglês Stephen Hawking, 71, vivo até hoje, após diagnosticado, em 1963, que só teria mais 3 anos de vida, defendeu o direito ao suicídio de doentes em estado terminal.
MEU DEUS! Haveria, no Brasil, 1 milhão de consumidores de drogas ilícitas.
 
Leitores

A leitora e professora Inês Ferreira vibrou com a perspectiva aberta para a reabilitação dos teólogos expurgados em papados anteriores. Isso aconteceria, diz ela, para o bem da Igreja e dos pobres e em honra ao Deus Libertador. “Resgatemos, finaliza, os rumos de uma “Terra Sem Males”.
 

 
“Todas as nossas palavras serão inúteis se não brotarem do fundo do coração. As palavras que não dão luz aumentam a escuridão”.

“Não ame por beleza, pois um dia ela acaba. Não ame por admiração, pois um dia você pode decepcionar-se. Ame apenas, pois o tempo nunca poderá apagar um amor sem explicação”.

Madre e Santa Teresa de Calcutá, 1910-1997
Missionária albanesa e fundadora de uma Congregação Religiosa