Sábado, 21 de Outubro de 2017

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Natal

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Frei Neylor Tonin - 21 de dezembro de 2013 às 10:45

NATAL: da parte de Deus, é uma graça inacreditável, impensável por nós, humanos. Deus poderia ter aparecido de muitas outras formas. Preferiu a forma humana. Ser gente não é nenhum desdouro nem para Deus. Quando uma mulher rasga seu corpo e aperta em seu peito um filhinho, ela atualiza a criação de Deus. A mãe é a mais eloquente imagem de Deus. Ela nos consola, como Deus, nos salva, como Deus, dá sua vida por seus filhos, como Deus. Todas as sociedades deveriam ter um monumento às mulheres MÃES. São elas que criam os criadores da sociedade. Benditas mães! Benditos filhos... de uma mãe!

NATAL: da parte do homem, é uma partilha imperiosa e urgente. No Natal, Deus chega até nós. Arma sua tenda em nossa terra. É verdade que Deus veio para o que era seu, e os seus não o receberam, Sua luz brilhou nas trevas, mas as trevas preferiram a própria escuridão da noite ao esplendor de seu sol. Qualquer cantinho da terra, mesmo que seja uma estrebaria, é um lugar abençoado por Deus, porque Deus ama tudo o que fez e não se aborrece de nada do que criou. Ele é “o grande amigo da vida” (Sb 11,26). Por isso que o estábulo de Belém se encheu de anjos e lá não houve um lamento, mas cantos de alegria. No Natal, este canto precisa voltar. As estrebarias têm que conhecer o eterno canto dos anjos. Estes anjos podemos ser nós. Podemos e devemos. É possível fazer o Natal ser uma graça de Deus, pelo compromisso da partilha humana.

No Largo da Carioca, no Centro do Rio, recriamos todos os anos e fazemos acontecer o Natal para 500 crianças pobres e suas famílias. Uma gota de cuidados neste mar das misérias humanas, certamente! Mas é uma gota. Estas 500 crianças levarão em sua memória este gesto divino e humano: Deus estará nascendo e nós seremos seus anjos, cantando para elas e fazendo-as cantar de alegria. Por um dia, na vida sofrida delas, elas experimentam o que a humanidade experimentou, sem saber, no Natal de Jesus. É para elas, um DIA DE PAZ. Dessa Paz que tanto desejamos e que é o caminho de Deus para a humanidade. Como disse Gandhi, “não procuremos o caminho da Paz, porque a Paz é o caminho”.

Colunistas

Os comentários, a cada ano, de vários colunistas de jornais são de indecisão e de perplexidade, quando se decidem ou se veem forçados a não evitar o assunto Natal. É como se dissessem: “Poxa, de novo? O que dizer que já não disse nos anos anteriores?” A ficar apenas nas materialidades da festa, torna-se difícil escrever algo substancial de interesse dos Leitores sobre tema tão específico. As materialidades do Natal – Papai Noel, presépios, árvore de Natal, presentes, compras, correrias, crianças desejosas e aflitas, comida, família reunida, descanso das atividades – tudo isso se repete com mínimas variações de ano para ano. As coisas materiais, com certeza, têm limites ingratos e de pouca inspiração. Não assim, a espiritualidade da festa, do nascimento de Jesus, do qual se podem lembrar consequências ricas e sempre novas. Não dá para comentar o Natal com um artigo escrito sobre as coxas. O ideal seria que nascesse dos joelhos de quem crê e reza. Não critico os colunistas por nada. Cumprem seu papel, mas vejo-os patinando em suas descrenças religiosas. Para quem crê, o Natal é um acontecimento único para a humanidade, não só para os cristãos. Aconteceu um dia, com data precisa (“quando César Augusto era o imperador de Roma, Quirino, o governador da Síria, no tempo do Rei Herodes”). Escrever sobre isso envolve mais do que satisfazer uma obrigatoriedade profissional. De qualquer forma, sobra sempre a pergunta perplexa de Machado de Assis com a qual finalizou seu soneto: “Mudou o Natal, ou terei mudado eu?” A todos os jornalistas e aos queridos Leitores da nossa coluna, meus votos são de Paz e de um FELIZ NATAL!

Oração pela Paz diante do Presépio

Ó Jesus, lindo menino e príncipe da paz:
gostaríamos, hoje, de pedir-te um grande presente: a paz!
Nós e nosso mundo precisamos tanto de paz,
da Paz verdadeira e inteira, da qual és a fonte e a garantia.
Dá-nos, te pedimos, um coração de paz, bom e amigo!
Faz-nos instrumentos da paz,
daquela paz anunciada pelos Anjos nas campinas de Belém.

Que bom seria, Jesus, se pudéssemos, em troca,
também te oferecer um mundo de paz e uma festa de irmãos!
O ruído das armas, no entanto, ainda assusta a pombinha da paz
e a violência campeia enlouquecida em nosso mundo.

Mas, Jesus, lindo menino e príncipe da paz,
não tenhas medo nem deixes de nascer!
Há todo um mundo que luta pelo bem
e que acredita na “civilização do amor”.

Um dia, quem sabe, sob tua inspiração,
“o lobo habitará com o cordeiro
e o leão comerá capim com o boi” (Is 11,6-7).
A justiça, então, inundará a terra,
como as águas enchem o mar (v. 9).
E todos cantaremos e dançaremos, juntos,
o nascimento de um lindo menino, que és tu.

Por hoje, reforça nossos anseios de paz
e reacende, forte, a chama da esperança,
ao mesmo tempo em que colocamos, junto a teu presépio,
com alegria e sem medo, nosso pobre coração humano,
machucado, quem sabe, mas, ao mesmo tempo,
inebriado com os sonhos de um Feliz Natal!

Frei Neylor. J. Tonin
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net

De Coração Aberto - Mandela e Papa Francisco

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Frei Neylor Tonin - 14 de dezembro de 2013 às 11:29
reprodução

Mandela era ateu

Li, com certo espanto, que alguns apologistas da religião postaram o comentário: “Gandhi era ateu!” “Mandela era ateu!” Comentário sem graça e sem propósito! Num momento de profunda admiração, que reuniu mais de 90 Presidentes mundiais em torno da figura eminente e maior de Nélson Mandela, anotar que ele teve ou não religião beirou ao ridículo e ao sem graça. Ele foi um homem de Paz. Nesse sentido, ele foi um homem pascal. Cristo o teria saudado: “a Paz esteja convosco”. E mais: “A quem perdoardes os pecados (do ódio, do rancor) eles serão perdoados”. Mandela ficou preso durante 27 anos e voltou para sua casa e para seu país sem mágoa e sem ódio. Dentro de nossas Igrejas, ao contrário, há muitas pessoas que estão presas por décadas a ódios trágicos e amargos. Saem às ruas, todos os dias, carregando consigo um rosto de ódio. Um dia, serão colhidos pela morte com um coração irreconciliado e rancoroso. Sobra a pergunta: Quem foi mais cristão, Mandela que venceu o ódio das humilhações e das injustiças, ou alguns seguidores de Cristo que não escutaram nem viveram seu mandamento: “Perdoai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos perseguem”? Deixem cair as pedras das mãos. Só as atirem quem não tiver pecado. A nossa religião é a do perdão e da paz. Caso contrário, podemos ter religião, mas não seremos religiosos e muito menos cristãos. Na verdade, vejo como muitos ainda vivem no Antigo Testamento, mas estão longe da Páscoa da Paz e do Perdão. Talvez Mandela tenha sido ateu, mas tinha alma cristã. Por isso, reuniu em torno de seu cadáver 90 Presidentes mundiais. Quem estará em torno do nosso? Ele mereceu discursos exaltantes por sua vida. E nós? Que mereceremos nós? O ódio não constrói jardins. Só cemitérios.

Permitam-me mais uma curta palavra sobre Nélson Mandela. Escrevi, um dia: “O ódio jamais construiu jardins. Só cemitérios”. Esta foi uma verdade pétrea de sua vida. Depois de 27 anos de prisão, não demonstrou nenhum resquício de ódio. Teria tido muitas razões para extravasar o ódio das incompreensões e injustiças sofridas por que passou. Saiu, no entanto, da prisão para o campo da paz, esquecendo o campo minado do Apartheid. Nesse sentido, permitam-me dizer que foi um verdadeiro franciscano. A África do Sul ainda não é, com certeza, um jardim um Reino dos Céus, mas está longe de ser um cemitério, graças, em grande parte, a ele, Pai da Pátria, que merece os aplausos do mundo inteiro. Quando se compara seu voo de águia altaneira com as rasteirices de muitos outros governantes mundiais e nacionais, dá uma grande vontade de chorar lágrimas de fogo e decepção. Você, NÉLSON MANDELA, não foi apenas um herói para seu povo. Você foi e é uma estrela de coruscante brilho para a humanidade. Por isso, caracterizou-o, com inteira justiça seu companheiro de lutas, o Bispo Desmond Tutu: “Um Colosso de integridade e caráter pessoal inatacáveis” e como “a figura pública mais admirada e mais venerada do mundo”. E disse mais: “Ele se consumia por essa paixão em servir, porque acreditava que um líder existe para o benefício dos que são guiados, não para o autoengrandecimento ou a autopromoção”. Se você, NÉLSON MANDELA, nos desse a honra de uma visitinha ao nosso Convento, eu lhe serviria, em nome de todos os homens e mulheres, amantes da Paz, uma bandeja cheia e transbordante das gostosas “bolachas pintadas” do Natal.

Papa Francisco, a Personalidade do Ano

Entre muitos outros, pessoas dignas ou lamentáveis deste ano, o PAPA FRANCISCO foi apontado, pela revista norte-americana TIME, a PERSONALIDADE DO ANO de 2014. Com inteira justiça, podia ter sido NÉLSON MANDELA, que ainda não tinha morrido durante o processo de votação. Mas a escolha do PAPA FRANCISCO também foi justa, pois ele é merecedor de todos os aplausos. Poucos meses de papado, mas com uma atuação marcante e profundamente humana. Não é difícil admirar o nosso Papa. Ninguém pode esquecer muitos de seus gestos “pouco papáveis”, mas significativos e surpreendentes. No balcão da Basílica de São Pedro, inclinado, começou, no dia de sua apresentação “urbi et orbi”, rezando e pedindo orações ao povo, sem se esquecer de seu antecessor Bento XVI, que tinha renunciado. Depois os gestos surpreendentes foram se multiplicando, revelando que um novo tempo se instalava em benefício da Igreja Católica e para os novos rumos da humanidade. No primeiro dia, foi de carro normal rezar na Basílica de Santa Maria Maior, com uma parada para, in persona, pagar o hotel em que ficara hospedado nos dias anteriores ao Conclave. Papa pagando hospedagem em hotel? Só mesmo Mario Jorge Bergoglio. Além dos gestos, sucederam-se as falas. Como João XXIII, está abrindo as portas da Igreja. Pediu aos padres que fossem para as ruas e que não ostentassem luxo em seus carros e comportamentos, porque o povo não gosta de pastores dinheiristas. Nos primeiros dias, anunciou que a Igreja é dos pobres e devia ser pobre. Sem solenidades e protocolos, abandonou o vezo doutrinário em seus sermões, embora seja um bom teólogo. Pediu que a Igreja abandone velhas e surradas questões polêmicas, como aborto, casamento entre gays e relações homossexuais, e anuncie o cerne do caminho evangélico que confessa Cristo como Salvador e Deus como Pai de misericórdia. Aconselhou que os padres, mais do que sérios defensores da doutrina, sejam alegres e acolhedores. Em referência as outras religiões, mostrou que não as condena, mas pediu que todas se unam no respeito em favor da eliminação das tristezas que afligem pessoas e nações. Usa e acentua valores como esperança, alegria, ternura e acolhimento, afirmando que a Igreja, por ser mãe, não deve se comunicar com escritos e documentos, mas deve acolher, abraçar, afagar, amar e alimentar. Abdica de secretários, e ele mesmo carrega sua maleta ao entrar em aviões. Abraça, ao invés de dar a mão para  beijos. Sacode a consciência das pessoas e instituições para o escândalo da fome e para a morte de pessoas por causa do frio. Insiste nos valores éticos e humanos, parecendo mais um Cura de Aldeia do que o sucessor de Pedro. Beija crianças, entusiasma jovens e pede respeito pelos idosos. E recomenda que, diante de visitas inesperadas, é sempre possível, botar mais água no feijão. Este é o nosso Papa. Por isso e por muito mais, foi, com justiça, eleito a PERSONALIDADE DO ANO.

“Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, da sua origem ou da sua religião. Para odiar, é preciso aprender. E se se pode aprender a odiar, pode-se também aprender a amar”. “A derrubada da opressão foi sancionada pela humanidade, é a maior aspiração de cada homem livre”. “Bravo não é quem não sente medo, mas quem o vence”. “Marcados nessas pedras (de sua prisão), você vai encontrar a dor da nossa luta, a tristeza das nossas perdas e os alicerces de nossa vitória”. Nélson Mandela, 1918-2013 - Líder sul-africano, Pai da Pátria e Prêmio Nobel da Paz