Sábado, 21 de Outubro de 2017

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Todos os Santos

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Frei Neylor Tonin - 03 de novembro de 2013 às 14:57
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A festa do dia de Todos os Santos é celebrada em honra de todos os santos e mártires da Igreja

Antigamente, era no dia 1º. de novembro que a Igreja Católica celebrava a festa de Todos os Santos. Atualmente, é neste domingo, o primeiro domingo de novembro. Os santos são venerados, pelos católicos, como heróis e pessoas que se aproximaram, em vida, grandemente da pessoa ou mistério de Deus. Mais do que o normal das pessoas, chegaram mais perto da divindade. Evidentemente, não são Deus, eles são “pessoas de Deus”, e são vistos como exemplos a serem seguidos pelos que querem viver como eles, numa maior intimidade com Deus. Ao serem canonizados, a Igreja confessa que viverem as virtudes da religião “em grau heroico”. Em São Francisco, a virtude do amor aos pobres e leprosos. Em Santa Teresa de Calcutá, no amor pelos moribundos e excluídos da sociedade. Em Santa Teresinha do Menino Jesus, na entrega às tarefas mais simples da vida de um mosteiro. Nos Santos Mártires, no testemunho final de sua fé.

Aqui, fazem-se necessários um esclarecimento e um alerta para que se evitem uma dupla ignorância. Relativamente aos santos, é bom esclarecer que os católicos não adoram os santos. “Adorar”, aliás, tem uma dupla acepção. Comumente, as pessoas dizem, sem grandes reflexões, que adoram sorvete, pipoca, que adoram viajar ou ver novela, ou confessam “eu te adoro”. Esta é a primeira acepção (popular) que tem a elástica palavra adorar. Adorar, numa segunda acepção, somente é aplicável a Deus. Em todas as religiões, Deus é adorado. A palavra vem do latim, com a preposição “ad” (para) e o substantivo “os, oris” (boca). Adorar seria, portanto, colocar a boca em Deus. Em outras palavras, seria reconhecer que o ideal da adoração implica numa busca religiosa de se aproximar tanto de Deus quanto um beijo aproxima duas pessoas que se amam.

Os santos teriam conseguido isso pelo estilo de vida que levaram. Irmãos pentecostais e evangélicos condenam os católicos, acusados de adorar os santos. Os santos não podem ser adorados, mas apenas venerados, admirados e aplaudidos. Qualquer outro comportamento seria inadmissível. Quando os católicos veneram os santos, não param neles, mas, com eles, desejam chegar mais perto de Deus. Aqui, alertamos os católicos sobre os limites de seu culto aos santos e aos evangélicos esclarecemos que não façam acusações inconsistentes. No primeiro sentido da palavra adorar, há católicos que costumam dizer “adoro este ou aquele santo”. Usam a acepção popular do termo. Na segunda acepção, a clássica, original ou teológica, só se pode adorar a Deus. A não mantermos esta compreensão, ninguém mais, nem católicos nem evangélicos poderá dizer: “Adoro uma boa picanha”, “adoro um shoppinho ou as flores do jardim de minha casa”. Pessoalmente, não vejo problema em dizer que adoro São José (por meu segundo nome); adoro São João Batista (por ser o santo padroeiro de Luzerna, onde nasci); adoro São Francisco e Santa Clara (por serem os fundadores da Ordem à qual pertenço); adoro Santo Antônio (por ter vivido 20 anos em seu Convento, no Largo da Carioca, Rio) e adoro, sobretudo, Nossa Senhora (minha querida mãe e mãe de Jesus, a quem quero seguir na vida e na morte). Que os santos e mártires nos protejam e nos lembrem que, acima de tudo, somos de Deus, a quem somente adoramos, e seguimos Jesus, nosso único Salvador. O resto é briguinha de comadres, é coceira de quem não tem o que fazer.

Finados

O grande e mais importante dia nacional dos Estados Unidos é o “Memorial Day”, dia em que os americanos lembram seus mortos e os heróis que deram a vida pelo país. No Brasil, o Dia de Finados é igualmente muito lembrado, porque somos um povo sentimental e vivemos pungidos pela saudade. Infelizmente, entre nós, principalmente em grandes cidades, os enterros já não gozam da mesma circunspecção e solenidade, como antigamente. Mas isso não tira a seriedade e o peso da morte. Nossas igrejas se enchem para as Missas de 7º. Dia. Devemos reconhecer que, muitas vezes, não passam de acontecimentos sociais de baixa pureza religiosa. Mas a morte não pode restringir-se apenas a discursos, coroas de flores e a comentários superficiais. A morte dos outros pode ser, para nós, trágica e lamentável. A nossa, no entanto, é-nos simplesmente inaceitável. Basta que constatemos qualquer sintoma mais sério de doença, para nos colocarmos e colocar o mundo em estado angustiante de alerta.

É difícil, senão impossível, acostumar-se com a ideia da própria morte. Isto, aliás, não deveria causar estranheza a ninguém, pois diz a sabedoria popular: “Ninguém fica para semente”. Há os que consideram uma graça morrer de repente, sem sentir que a hora chegou. Há outros que chegam a transformar a morte num espetáculo, maquiando os próprios medos com rompantes de vaidade e dramaticidade. Há ainda os que se entregam aos afazeres do dia a dia, não se dando tempo para pensar que o fantasma da morte os está rondando. Mas há, também, os que morrem em paz, reconciliados com a vida, ou porque estão cientes de terem vivido bem, ou porque creem na realidade feliz da pós- morte. Para uns e para outros, no entanto, morrer sempre será um penoso acontecimento, uma hora decisiva de difícil aceitação.

Humanamente, a morte é a grande vilã, a grande inimiga da vida, pois coloca em cheque e frustra não um, mas todos os sonhos de quem parte e deixa uma inconsolável saudade em quem fica. A verdade é que viver é também estar sempre morrendo. Cada minuto que passa é uma pequena morte que acontece. Não morremos apenas nos minutos, mas também nos acontecimentos. Morremos para tudo que fazemos e a estas mortes chamamos de “passado” ou “nossa história”. É disso que vamos criando saudades. Quanto mais envelhecemos, mais vamos alimentando saudades das pequenas mortes que foi nossa vida. Até que, um dia, acabamos de vez de ter saudades de toda a vida e se instala, em nós, definitivamente, como desafio último, a saudade de Deus. A isso chamamos, na fé, de morte, e, assim, morre quem acredita no Senhor da vida. Religiosamente, morrer é voltar para Deus o que fazemos desde o instante em que nascemos. Nascemos, cheios de cuidados pela vida e morremos, totalmente pobres, cheios dos cuidados de Deus.

“Estou sendo chamado. Dizei-me adeus, irmãos! Eu me despeço e vou embora. Deixo-vos a chave da minha porta. Renuncio a qualquer direito à minha casa. Peço-vos apenas amáveis palavas de despedida. Fomos vizinhos por muito tempo e recebi mais do que eu poderia dar. Agora, já é dia e está se apagando a lâmpada que iluminava o meu canto escuro. Ouço que me chamam e estou pronto para a viagem”. Rabindanath Tagore, 1864-1941, Prêmio Novel de Literatura em 1913

Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
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De Coração Aberto - Primeiro santo brasileiro

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Frei Neylor Tonin - 27 de outubro de 2013 às 14:03

Há seis anos, a Igreja do Brasil mereceu também ela as honras dos altares, na pessoa de Frei Antônio de Sant’Anna Galvão, o primeiro santo brasileiro. No dia 28 de outubro de 1998, o Papa João Paulo II tinha beatificado a FREI GALVÃO, oficializando-o como o primeiro beato brasileiro e reconhecendo-lhe publicamente “o grau heroico de virtudes”. A partir deste dia, todos os seus devotos, no Brasil, puderam rezar e invocá-lo: “Beato Frei Galvão, rogai por nós!” E no dia 11 de maio de 2007, há seis anos, o Papa Bento XVI proclamou Frei Galvão santo para o mundo todo. (Na praxe da Igreja, como beato, a veneração era restrita ao Brasil; como santo, ela foi estendida para todos os devotos em qualquer parte do mundo. Hoje, Frei Galvão pode ser o padroeiro de uma igreja no mundo todo.)



Nascimento

Do primeiro santo brasileiro – disse o Visconde de Taunnay “corria-lhe nas veias uns duzentos e cinquenta e seis anos de sangue americano”. Ele foi filho de Antônio Galvão de França, culto e remediado patrício português que aportou no Brasil em torno a 1730, e de Isabel Leite de Barros, nascida em Pindamonhangaba, São Paulo. Ambos pertenciam a famílias profundamente religiosas e, depois de terem seus primeiros três filhos em Pindamonhangaba, mudaram-se para Guaratinguetá onde nasceu em 1738/9 o filho que recebeu o nome de Antônio de Sant’Anna Galvão. O casal teve, ao todo, 10 filhos.

Frade franciscano

Antônio teria manifestado, desde cedo, o desejo de seguir a carreira eclesiástica. Queria ser padre e missionário. Seu pai, esperto português, desaconselhou-o a fazer-se jesuíta, embora tivesse sido chamado de “flor da formação jesuítica” pelos estudos que fez com eles em Salvador, Bahia, pois, naquele tempo, eram perseguidos pelo Primeiro Ministro português, Marques de Pombal. Seus pais pertenciam à Ordem Franciscana Secular e Antônio ingressou no Noviciado dos Frades Menores em 1760. Dois anos mais tarde, precisamente no dia 11 de julho de 1762, foi ordenado sacerdote muito provavelmente no Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca da cidade do Rio de Janeiro.

A pé

Não se demorou muito nesta cidade. Seu destino era São Paulo a 400 quilômetros do Rio. Para lá se dirigiu o recém-ordenado padre, com pouco mais de 24 anos. Merece registro o fato de ter ido a pé! Quando chegou a São Paulo, a atual metrópole com mais de 15 milhões de habitantes, era uma esquálida vila de apenas 3.852 moradores. Frei Galvão deve ter sido, nesta esquecida cidadezinha, uma figura proeminente, pois foi logo ocupando cargos e ministérios. O livreto Louvores a Frei Galvão o descreve como “astuto conforme o evangelho”, “instrumento franciscano de paz”, “místico e fecundo na ação”, “testemunho do trabalho”, “porteiro e fiel acolhedor”. Em São Paulo, empenhou-se a construir o Mosteiro da Luz, para abrigar as prostitutas da cidade e uma congregação de freiras: as Monjas franciscanas Concepcionistas. Tendo terminado seus estudos em 1768, aos 30 anos, foi nomeado pregador, confessor dos leigos e responsável pela Portaria do Convento de São Francisco de São Paulo. Mas ele queria mais, muito mais, e isto foi sua glória e sua cruz.

Intrigas

O Capitão-General da Comarca, Dom Luís, Governador da Capitania, resolveu criar uma Academia de Letras, para a qual convidou Frei Galvão. Itu, Sorocaba, cidades do Vale do Paraíba foram visitadas pelo pregador franciscano, insigne por sua sabedoria e eloquente por sua retórica. Mas nem tudo foi céu-de-brigadeiro na vida de Frei Galvão. O que Dom Luís teve de amigo, seu sucessor, Dom Martim Lopes, foi de espinho. Para agradar seus chefes imediatos que eram declaradamente anticlericais, Dom Martim ordenou o imediato fechamento do Recolhimento da Luz, obra que vinha ocupando as forças e o engenho construtor de Frei Galvão e cujos benefícios já se faziam sentir na vida dos habitantes de São Paulo. Mas o clamor popular foi mais forte e o Governador teve que voltar atrás, pela primeira vez. Mas houve uma segunda que ocorreu quando o filho do Governador se envolveu numa bebedeira e brigou com um soldado chamado Caetaninho que o feriu. O pobre soldado foi condenado à morte, o que revoltou a população e encontrou em Frei Galvão o advogado forte que o caso precisava. Como o Governador era maldoso, acabou expulsando o frade da cidade que se prontificou em obedecer, sem reagir. Mais uma vez o povo, que tanto já o reverenciava, o salvou e o decreto foi revogado, podendo Frei Galvão permanecer na cidade.

Hall da fama

No Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro (Largo da Carioca), há seis enormes quadros, pintados em torno a 1862 pelo artista italiano Tirone, que ocupam uma espécie de Galeria dos Homens Ilustres. Entre eles estão Frei Francisco de Santa Teresa de Jesus Sampaio, um dos artífices da Independência do Brasil e promotor do Dia do Fico e Frei Francisco de Monte Alverne, o maior pregador da época e orador oficial da Capela Real do Outeiro Nossa Senhora da Glória. Pois bem, um dos seis quadros retrata Frei Antônio de Sant’Anna Galvão. Isto significa que, tendo vivido 84 anos – morreu no dia 23 de dezembro de 1822 -, foi um pico soberano em meio à paisagem do século XIX, alteando-se como cultura e santidade, como realizador de uma obra admirável e figura fascinante de extrema grandeza e beleza espiritual. Foi corajoso sem ser duro, foi dedicado sem ser subserviente. Enfrentou autoridades e acudiu os necessitados. Nunca mostrou medo e foi sempre frade menor em seus serviços apostólicos. Hoje ocupa, com méritos próprios e por graça divina, os altares da Igreja Universal como o primeiro santo brasileiro declaradamente na glória dos santos. Sua festa foi fixada para o dia 25 de outubro.

Oração a de Frei Galvão

Ó Santo Frei Galvão, que recebestes de Deus a graça da santidade e fostes um exemplo de caridade, intercedei por nós junto a Deus, a quem servistes com fidelidade e por Ele fostes amado. Peço-vos ajuda em nossas dificuldades e bênçãos para a saúde do corpo e da alma. Peço-vos, sobretudo, uma caridade sem limites, uma fé sem vacilações e a graça de caminhar, sem desânimo, até o fim de minha vida. Meu santo Frei Galvão, vós fostes um pregador da paz e da reconciliação entre as pessoas. Ajudai-me a viver em paz com os meus semelhantes, com minha família, e até com meus inimigos. Amém.

Trecho da Homilia de Bento XVI ao canonizar Frei Galvão, em 11.05.2007

“Significativo é o exemplo do Frei Galvão pela sua disponibilidade para servir o povo sempre quando era solicitado. Conselheiro de fama, pacificador das almas e das famílias, dispensador da caridade especialmente aos pobres e aos enfermos. Muito procurado para as confissões, pois era zeloso, sábio e prudente”.

Frei Neylor, irmão menor e pecador
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net