Sábado, 16 de Dezembro de 2017

O Repórter

Frei Neylor Tonin

Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta.
Frei Neylor Tonin

De Coração Aberto - Lamúrias e alienações

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Frei Neylor Tonin - 23 de fevereiro de 2014 às 11:44
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Há um mundo de lamurientos e de alienados que é insuportável. Os primeiros reclamam de tudo e de todos e os outros se esquivam, sobranceiramente, dos problemas mais mordentes e dolorosos da sociedade. Uns e outros deixam transparecer um refinado egoísmo e uma lamentável imaturidade. Estou escrevendo um livro que tem como introdução o que se segue abaixo. O livro, por enquanto, terá como título: “E os jardins continuam florindo”. Apresento-lhes uma introdução provisória, em primeira redação, mas que já sinaliza por onde correrá o trem.

Pode ser fácil, mas é trágico, viver de costas para a vida. Quantos vivem assim, com medo ou revolta, por insegurança. Para eles, a vida não é um jardim, mas uma terra seca e árida, sem graça e sem beleza. Para eles é mais confortável armar-se com duas pedras, ao invés de com um feixe de flores ou um cesto de frutas. Como escrevi alhures, se não  puder jogar-flores nos outros, também não lhes atires pedras.

Estou tentando escrever este livro para você que é um pessimista mal-humorado, azedo, sempre propenso ao pior, um aflito hoteleiro do lado sombrio dos fatos. Escrevo para você que, diante de um esplendoroso dia de sol, reclama do calor e do céu sem nuvens e se pergunta apocalipticamente “por que não chove”? E, quando chove, se pergunta “cadê o sol”?

Pensei escrever este livro para você que é um otimista irrecuperável, sorridente, que acredita que o mal não existe como é pintado, nem a fome é tão feia quanto é descrita. Diante de uma tremenda catástrofe, você não faz nada, se omite, vive alienado, mas confessa que a vida não é tão ruim assim.

Pensei escrever este livro para você que é um realista juramentado, presunçoso, impertérrito, impermeável, monolítico. Você não aceita nem o pessimista nem o otimista. Acredita apenas em seu realismo que é um metro a medir tudo com a isenção da distância e a sobranceirice das avaliações irreformáveis.

Não sei se você é pessimista, otimista ou realista. Eu não sou nenhuma coisa nem outra. Quero apenas amar a vida, servi-la e fazer com que os jardins continuem florindo. Se isso for possível, aleluia! Caso não, escreverei um outro livro que terá como título: “Os Jardins Secaram. Já Não Têm Flores! Infelizmente!”

Domingo é dia de sermão

Nas três Leituras Bíblicas que são apresentadas neste domingo, há um forte apelo à santidade ou à perfeição de Deus. No livro do Levítico (5,1-2;17-18), Deus fala explicitamente ao povo através de Moisés: “Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo”. No evangelho de Mateus (5,38-48), a perícopa termina com estas palavras: “Portanto, sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito”. Na Primeira Carta aos Coríntios (3,16-23), o Apóstolo desenvolve o raciocínio de que os seguidores de Jesus devem ser santos, porque Cristo é de Deus, que é santo.

A santidade exigida dos cristãos e judeus é, sem dúvida, motivada pelo Deus santo, mas será sempre comprovada no amor pelos semelhantes. A santidade pode ter um parâmetro encima, em Deus, mas tem uma contraprova embaixo, nas pessoas. Eis como se expressa o Evangelho: “Amai os vossos inimigos, orai pelos que vos perseguem, para serdes filhos de vosso Pai que está nos céus, que faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos”. No Levítico, o contexto da santidade de Deus também inspira o amor aos semelhantes: “Não guardes no coração ódio contra teu irmão. Repreende teu concidadão para não te tornares culpado de pecado por causa dele”. A santidade bíblica gira sobre dois eixos: em Deus, porque Ele é santo, e no irmão porque ele é “templo de Deus” (São Paulo). A carroça não se move só com um eixo. Ou se apoia nos dois, ou se torna capenga e alienada.

PLAC! PLAC! para o Papa Francisco que, aos poucos, vai dando à Igreja um novo rosto, o rosto de uma Igreja pobre, para os pobres.
PLAC! PLAC! para o Papa Francisco que pediu aos novos Cardeais que evitem “qualquer festividade incompatível com o espírito evangélico de austeridade e pobreza”.
PLAC! PLAC! para 91% dos brasileiros que consideram o desempenho do Papa Francisco como “bom ou ótimo”.

UUUH! UUUH! para o regime sírio de Bashar al-Assad que já torturou e assassinou, numa guerra fratricida, mais de 11 mil opositores.
UUUH! UUUH! para o Presidente venezuelano Nicolás Maduro que prende à revelia, tendo criado o Vice Ministério para a Suprema Felicidade Social do Povo.
UUUH! UUUH! para o Brasil que só tem 4 Universidades (USP, UNICAMP, UFRJ e UNESP) entre as 100 melhores instituições educativas em países emergentes.

MEU DEUS! 95,1% dos brasileiros não confiam em Partidos políticos. Na Igreja Católica, 50,3%.
MEU DEUS! Em Nova York, um maço de cigarros custa US$ 10 e só pode ser comprado por quem tem mais de 21 anos.
MEU DEUS! Apenas 18% das 1001 favelas do Rio tem a presença das UPPs, enquanto 37% delas ainda são dominadas pelo tráfico.

“Já reparaste, Senhor, nas crianças que estão aprendendo a ler e que saem pelas ruas lendo todos os letreiros que encontram no caminho? Já notaste a delícia dos enganos que cometem e a euforia que sentem quando logram triunfar? No domínio de tuas mensagens estou assim: ainda soletrando tudo e, de vez em quando, cometendo disparates que de certo te fazem rir”. Dom Hélder Câmara, 1909-1999 - Arcebispo Brasileiro

Frei Neylor. J. Tonin
neylor.tonin@terra.com.br
www.freineylor.net

De Coração Aberto - Secundum quid

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Frei Neylor Tonin - 16 de fevereiro de 2014 às 11:16
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Elizabeth Bishop foi uma autora americana, considerada um das mais importantes poetisas do século XX a escrever na língua inglesa

Em relação a fatos e verdades, essa expressão latina, em seu significado assertivo, pode ser traduzida como “em parte” ou “relativamente”. À exceção das verdades matemáticas, todas as demais são “secundum quid”. “En passant”, eis alguns exemplos: A poeta norte-americana Elizabeth Bishop, que viveu alguns anos no Rio, externou em cartas suas impressões sobre o Brasil. Foram impressões duras e contundentes, pouco lisonjeiras, embora tenha sido aqui bem tratada e ter vivido um grande amor com a paisagista Lota de Macedo Soares. O Rio, segundo ela, era uma cidade decadente, o trânsito infernal e as ruas e edifícios de Copacabana eram simplesmente sujos. Eram? “Secundum quid”, evidentemente, eram. Vivi em Washington, na parte North East da cidade, por dois anos e costumava, às 18h00, dar uma Bênção do Santíssimo num Mosteiro de Clarissas, a uma quadra do Colégio onde residia. O Guardião me aconselhava a não ir a pé, mas de carro, por ser muito perigoso. Nem sempre obedecia. Muitas vezes caminhava por não ver perigo algum. Graças a Deus, nunca me aconteceu nada. Era perigoso? Era, “secundum quid”. Um confrade americano levou uns safanões e foi jogado ao chão na Rua 14, que dá acesso à Casa Branca, enquanto aguardava o ônibus de volta para casa. O Centro da capital americana era perigoso? Era, “secundum quid”. A quantos outros nada aconteceu.

Paris, a Cidade Luz, Roma, a cidade mais cheia de arte ao ar livre do mundo, tinham, quando lá vivi, metrôs pouco louváveis em termos de limpeza, nem comparáveis com a limpeza do Metrô do Rio. Os parisienses passavam pelas catracas do Metrô, que não engolia os bilhetes, e os usuários os jogavam no chão que ficava um lixo. Falta de educação? Quem ousaria dizê-lo? Em verdade, sim, “secundum quid”. Curitiba, a capital mais humana entre todas do Brasil, já foi cenário de crimes hediondos. Seria Curitiba uma cidade perigosa,amedrontadora? Sim e não, “secundum quid”. Padres e Pastores são muitas vezes acusados de ambiciosos, argentários, dinheiristas. Seriam? Sim e não, “secundum quid”. Mil outros casos e cidades poderiam ser arrolados. Não se fazem necessários.

Ninguém pode viver tão seguro de suas poucas e relativas experiências. Não se pode viver com tantas verdades apodíticas, redondas e definitivas. Por isso, não devemos nos irritar quando turistas, depois de uma visita de oito dias, falam mal de nosso país. Todas as impressões que levam de nós são parciais e muito relativas. Não precisamos ficar chateados quando observadores apressados e ceguetas falam mal de nossos comportamentos. Todos podem estar certos em parte, relativamente, “secundum quid”. Somos, sem dúvida, mais do que dizem e eles falam do pouco que nos conhecem. Duro é quando falam de boca cheia, arrotando sapiência, como se fossem senhores absolutos duma verdade que conhecem tão pouco e somente em parte. A eles poderíamos dizer: Na verdade, vocês estão certos, mas certos “secundum quid”. (E, para quem é ignorante e pouco afeito ao latim, adianto que “quid” se pronuncia “qüid”, com o ‘u’ tremado. Assim aprendi em aulas de latim, com um encanecido professor alemão, mas tenho minhas dúvidas. Não sei como Cícero teria pronunciado “secundum quid”, em seus incandescentes discursos, do alto da tribuna do Senado Romano.)

Domingo é dia de sermão

No Sermão da Montanha, que é relatado no Evangelho de Mateus, estão expressos os principais conceitos do cristianismo

O Sermão da Montanha ocupa os capítulos 5, 6 e 7 do evangelho de Mateus. Neste domingo, Jesus fala sobre a necessidade do perdão, uma das verdades que mais chocaram seus ouvintes, habituados ao “dente por dente, olho por olho”. Esta medida, aliás, não foi só dos judeus, é de todos os povos e pessoas. É difícil, muito difícil, perdoar. O ofendido, quando não trama vingança, quer ao menos justiça e punição. Jesus apresenta o perdão como condição para reaproximar-se a Deus. “Se estiveres diante do altar para apresentar a tua oferta e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa tua oferta lá diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão e então volta para apresentar tua oferta” (7,23-24). Penso que nossas igrejas se esvaziariam, em parte, se isso fosse aplicado ao pé da letra. Na verdade, uma é a boca que louva a Deus e outra, bem outra, a que perdoa o semelhante ofensor. No fundo, os adeptos do Reino dos Céus são instados a ter um só coração que ama igualmente a Deus e ao próximo. É fácil amar a quem não se vê, Deus, diz o evangelista João, e odiar a quem se vê, o irmão. Quem assim procede é mentiroso, diz ele ecoando o Sermão da Montanha. Se pudesse te daria um conselho: Pega o telefone e liga para quem te ofendeu e convida-o para o perdão, pois é perdoando, como diz a oração de São Francisco, que se é perdoado. Depois, voltas para a igreja e aproxima-te do altar.



PLAC! PLAC! para o Papa Francisco e o Vaticano que criaram uma Comissão para proteger as pessoas contra abusos sexuais praticados por padres.
PLAC! PLAC! para a Suécia e a Holanda que estão fechando prisões por falta de candidatos.
PLAC! PLAC! para 93,4% dos brasileiros que são contrários às ações dos black blocs.

UUUH! UUUH! para o Presidente russo Vladimir Putin, filho de operários, cuja fortuna está avaliada em 40 bilhões de dólares.
UUUH! UUUH! para a Presidente Dilma que tomou partido nas acusações do PT contra o STF que condenou os mensaleiros.
UUUH! UUUH! para o Brasil que comparece com 15 entre as 50 cidades mais violentas do mundo. Maceió seria a sexta.

MEU DEUS! 80 pessoas foram executadas na Coréia do Norte pelas Bíblias encontradas em suas casas.
MEU DEUS! Os cinco países árabes que mais infligem maus tratos às mulheres seriam o Egito, a Arábia Saudita, o Iraque, a Síria e o Iêmen.
MEU DEUS! O número de estupros, no Brasil, em 2012, já teria sido maior do que o de homicídios.



“Uma resposta branda aplaca a ira, mas uma palavra ofensiva provoca a cólera. A língua dos sábios embeleza o saber, mas a boca dos insendsatos despeja tolices”. (Livro dos Provérbios, 15,1-2).

Frei Neylor. J. Tonin
neylor.tonin@terra.com.br
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