O Repórter

40 anos da Marquês de Sapucaí: relembre os desfiles inesquecíveis

Rio de Janeiro foi pioneiro em ter um lugar fixo para os desfiles das escolas de samba

Por Rafael Max
09 de fevereiro de 2024 às 13:10
Atualizada em 09 de fevereiro de 2024 às 17:30
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Alexandre Macieira/Riotur
O Sambódromo chega ao seu 40º aniversário
O Sambódromo chega ao seu 40º aniversário

RIO - O carnaval de 2024 no Rio de Janeiro será especial com o aniversário de 40 anos do Sambódromo da Marquês de Sapucaí. A cidade foi pioneira em trazer um lugar fixo para as apresentações das escolas de samba, marcando o fim do monta e desmonta das arquibancadas e das mudanças dos locais das apresentações.

A primeira edição dos desfiles das escolas de samba aconteceu em 1932, na Praça Onze, local já conhecido dos sambistas do Rio de Janeiro. Assim seguiu até 1942, quando o local foi demolido para a construção da Avenida Presidente Vargas. 

Entre 1943 e 1945, a imprensa local pouco falou de carnaval por causa da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, mas os desfiles seguiram sendo realizados. As apresentações de 1943 e 1944 ocorreram na Avenida Rio Branco e a de 1945, no Estádio São Januário. O ano de 1946 marcou a chegada da Avenida Presidente Vargas como novo palco das escolas de samba, logo no ano seguinte à vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.

Os desfiles das escolas de samba foram ganhando importância ao longo dos anos, logo ultrapassando os ranchos e sociedades, que faziam desfiles desde os últimos anos do século XIX. Em 1942 já havia arquibancada e um palanque para as autoridades. Havia também um tablado para a passagem das escolas, ideia abandonada em 1957. Já em 1961, houve o início da cobrança de ingressos.

Com as obras do metrô, os desfiles passaram a ser realizados na Avenida Presidente Antônio Carlos, em 1974. Já em 1978, passou a ser a Rua Marquês de Sapucaí.

Após o carnaval de 1983, finalmente o desejo dos sambistas em um local fixo de desfiles foi atendido. A Avenida dos Desfiles - nome provisório da época - foi projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer durante o governo de Leonel Brizola, com as obras sendo concluídas em 120 dias. O local ganhou o nome de Sambódromo, termo cunhado pelo antropólogo Darcy Ribeiro, que juntou a palavra "samba" com o termo grego "dromo", algo como "lugar para correr". Como o Sambódromo foi instalado na Rua Marquês de Sapucaí, acabou sendo popularizado este nome, embora o termo oficial seja Passarela Darcy Ribeiro.

O Sambódromo era composto por um conjunto arquibancadas de um lado e por um setor de camarotes do outro. O projeto original de Niemeyer só foi concretizado em 2012, com a construção das novas arquibancadas, simétricas ao lado "ímpar" da Avenida. A construção foi possível após o "destombamento" da antiga fábrica da Brahma. A Ambev, dona da cervejaria, custeou a obra e, em contrapartida, pôde construir um prédio no restante do terreno.

Com o Sambódromo, a festa ganhou grandes dimensões, com a valorização dos carros alegóricos, que cada vez mais surgem imponentes no carnaval carioca. Além disso, grandes sambas embalaram a Avenida nos últimos 40 anos.

Relembre alguns grandes desfiles dos 40 anos do Sambódromo:

1984 - Contos de Areia/Yes, Nós Temos Braguinha

O carnaval de 1984 foi marcado como o primeiro com dois dias de desfiles no grupo principal. E também pela peculiar regra daquele ano, com uma campeã para cada dia e um supercampeonato no sábado seguinte. A Portela foi a campeã do domingo com Contos de Areia, que homenageou  Paulo da Portela, Natal da Portela e Clara Nunes, personagens importantes de sua história. Na segunda, a Mangueira foi a campeã com Yés, Nós Temos Braguinha, homenageando o compositor João de Barro. O supercampeonato teve a presença das três melhores escolas de cada dia, além das duas primeiras colocadas do grupo 1-B, a divisão de acesso da época. A vencedora foi a Mangueira.

Caprichosos de Pilares em 1985 (Foto: Ricardo Leoni em Wikimedia Commons)
Caprichosos de Pilares em 1985 (Foto: Ricardo Leoni em Wikimedia Commons)

1985 - E Por Falar em Saudade...

Embora a campeã tenha sido a Mocidade e seu enredo Ziriguidum 2001, Um Carnaval nas Estrelas, muita gente deve se lembrar de E por Falar em Saudade..., da Caprichosos de Pilares, desenvolvido por Luiz Fernando Reis e Flávio Tavares. Com um samba envolvente e fantasias coloridas, a escola falou sobre a nostalgia dos tempos passados, criticando a economia da época, a derrocada do futebol brasileiro e o cenário político com as eleições indiretas para presidente. A escola terminou em quinto lugar na apuração oficial, mas levou o Estandarte de Ouro do jornal O Globo de melhor escola. No carnaval de 1986, o samba da Caprichosos daquele ano esteve no disco da gravadora Top Tape (enquanto que o álbum oficial era o da gravadora RCA). A azul e branco esteve na capa com os dizeres "campeã do povo".

1988 - Kizomba, Festa da Raça

Com dificuldades financeiras, a Vila Isabel conseguiu se superar para fazer um desfile considerado antológico. Milton Siqueira, Paulo César Cardoso e Ilvamar Magalhães apostaram em materiais baratos para confeccionar as fantasias e alegorias. O desfile abordou a cultura negra no ano marcado pelo centenário da abolição da escravatura. A estética apresentada fez o desfile ser considerado como um dos maiores da história da Marquês de Sapucaí.


Desfile da Beija-Flor de 1989 ficou imortalizado pelo Cristo proibido (Foto: Igmann Phill em Wikimedia Commons)

1989 - Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia

Outra "não campeã" clássica foi a Beija-Flor de Nilópolis que abordou o lixo e o luxo com Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia. A estética incomum até mesmo para os padrões do carnavalesco Joãosinho Trinta (famoso pelos desfiles luxuosos) marcou o carnaval de 1989. O desfile traria uma alegoria do Cristo Redentor como um mendigo, algo que foi proibido pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, dona dos direitos da imagem. A escultura foi coberta com os dizeres "mesmo proibido, olhai por nós", que acabou sendo incorporada à estética daquele desfile. A agremiação de Nilópolis ficou em segundo lugar, mas acabou ficando para a história.

1990 - Vira, Virou, a Mocidade Chegou

A Mocidade Independente de Padre Miguel falou sobre sua própria história com Vira, Virou, a Mocidade Chegou, desenvolvido por Renato Lage e Lilian Rabello, marcando os 50 anos da agremiação, com um desfile relembrando as grandes décadas da escola, além dos seus principais carnavalescos, como Arlindo Rodrigues e Fernando Pinto. A escola viria a conquistar o bicampeonato com Chuê, Chuá… As Águas Vão Rolar e o vice de 1992 com Sonhar não custa nada, ou quase nada.


Salgueiro em 1993 (Foto: Sérgio Santa Catarina em Wikimedia Commons)

1993 - Peguei um Ita no Norte

A partir de uma música homônima de Dorival Caymmi, o Acadêmicos do Salgueiro descreveu uma viagem de barco de Belém até o Rio de Janeiro. Com uma melodia arrasadora, a vermelho e branco fez o Sambódromo inteiro cantar a uma só voz. O refrão "Explode Coração" foi um dos grandes hits de 1993 e segue até hoje como um dos clássicos do carnaval carioca. Foi o primeiro - e único - título do carnavalesco Mário Boriello.

1997 - Trevas! Luz! A Explosão do Universo

Joãosinho Trinta certamente é um dos maiores nomes da história do carnaval, com títulos pelo Salgueiro e Beija-Flor. Mas ainda faltava um título dentro da Passarela do Samba. O carnavalesco já havia feito desfiles imponentes no Sambódromo, como A Lapa de Adão e Eva (1985), O mundo é uma bola (1986) e Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia (1989), todos com o vice-campeonato pela Beija-Flor. Após deixar a agremiação de Nilópolis, passou a ser a grande aposta da Viradouro, escola que já havia feito grandes carnavais em Niterói e que buscava se firmar na capital fluminense. Trevas! Luz! A Explosão do Universo falou sobre a teoria do big bang, que tirou o universo das trevas e trouxe a luz. O começo do desfile com elementos escuros deu o impacto estético que marcou aquela apresentação. Foi o último título de Trinta e o único dentro do Sambódromo.

2001 - Cana-Caiana, Cana Roxa, Cana Fita, Cana Preta, Amarela, Pernambuco... Quero Vê Descê o Suco, na Pancada do Ganzá

O desfile marcou o tricampeonato da Imperatriz Leopoldinense, que já havia vencido os carnavais de 1999 e 2000. Falando sobre a cachaça, a escola fez uma disputa acirrada com a Beija-Flor, que trouxe o enredo A Saga de Agotime, Maria Mineira Naê. O desfile consagrou Rosa Magalhães, que também venceu os carnavais de 1994 e 1995 pela Imperatriz. A carnavalesca ficou na verde e branco até 2009, com um breve retorno em 2022.


Silvio Santos foi o homenageado da Tradição (Foto: Wilton Júnior em Wikimedia Commons)

2001 - Hoje É Domingo, É Alegria. Vamos Sorrir e Cantar!

A Tradição apostou em um enredo popular para conquistar a avenida. Hoje É Domingo, É Alegria. Vamos Sorrir e Cantar! homenageou o apresentador e empresário Silvio Santos. O samba de fácil aprendizagem tocou bastante nos intervalos do SBT, se tornando um grande sucesso daquele ano. O desfile foi um dos maiores da Tradição, tendo participação de vários artistas do SBT, emissora pertencente a Silvio. Embora tenha terminado a disputa em oitavo lugar, o desfile teve bastante aceitação do público. Ganhou os prêmios de melhor escola e de melhor enredo no Tamborim de Ouro, do jornal O Dia, cujo prêmio é oferecido em votação popular. 

2004 - Manõa, Manaus, Amazônia, Terra Santa: Alimenta o Corpo, Equilibra a Alma e Transmite a Paz

O desfile marcou a fase "rolo compressor" da Beija-Flor de Nilópolis, que passou a apostar em uma comissão de carnaval, tendo Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, o Laíla, como diretor de carnaval da agremiação. A escola nilopolitana abordou a preservação da Amazônia e conquistou o júri. Nessa época, a agremiação havia vencido os carnavais de 2003 e depois viria a levar o desfile de 2005.


O carro do DNA (Foto: Wilma Honesto em Wikimedia Commons)

2004 - O Sonho da Criação e a Criação do Sonho. A Arte da Ciência no Tempo do Impossível

A Unidos da Tijuca apostou em Paulo Barros, que fazia a sua estreia no Grupo Especial. O carnavalesco trouxe uma revolução estética na Sapucaí com um desfile que falava sobre descobertas científicas e tecnológicas. O carro do DNA trouxe 123 pessoas com o corpo pintado fazendo movimentos sincronizados. As alegorias humanas tornaram-se a marca registrada de Paulo Barros. Ao fim daquele carnaval, a Tijuca terminou com o vice-campeonato.

2010 - É Segredo!

Paulo Barros viria a ganhar seu primeiro título no carnaval em 2010. Falando sobre os mistérios da humanidade, o desfile da Unidos da Tijuca fez um desfile considerado como "revolucionário" aos olhos da crítica. A comissão de frente chamou a atenção com truques de ilusiuonismo. Ao longo do desfile, a escola apresentou lendas misteriosas, falou sobre a arqueologia, personagens misteriosos (de ninjas a mafiosos), passando por extraterrestres e o ilusionismo.


Unidos da Tijuca homenageou Ayrton Senna em 2014 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

2014 - Acelera, Tijuca!

No ano marcado pelos 20 anos do falecimento de Ayrton Senna, a Unidos da Tijuca trouxe a história do piloto, um dos maiores nomes do esporte brasileiro. O carnavalesco Paulo Barros não quis saber de fazer um enredo cronológico e imaginou o desfile como uma grande corrida, abordando a velocidade. O desfile falou das personalidades que usam da velocidade, juntando o velocista Usain Bolt com personagens da ficção como Sonic e The Flash. Depois, foi a vez de falar da velocidade da internet e do trem bala. Por fim, chegava Ayrton Senna, o grande vencedor da corrida. O divertido desfile fez a Tijuca ganhar o carnaval de 2014, após também ter vencido em 2012, quando homenageou Luiz Gonzaga.

2017 - Quem Nunca Sentiu o Corpo Arrepiar ao Ver Esse Rio Passar?/As Mil e Uma Noites de Uma 'Mocidade' pra Lá de Marrakesh

O ano de 2017 foi marcado por uma situação curiosa. A Portela venceu o carnaval com um majestoso desfile sobre os rios do mundo. A tarefa coube a Paulo Barros, que deu um título para a azul e branco após 33 anos. Então vice-campeã, a Mocidade reclamou do desconto de um décimo porque um dos jurados se guiou por um roteiro desatualizado. Em uma plenária realizada em abril, a Liga Independente das Escolas de Samba concordou e acabou declarando a Mocidade também como campeã. O enredo desenvolvido por Alexandre Louzada falou sobre o Marrocos, tendo como um dos elementos um truque de ilusionismo que fez o personagem Aladim voar na Sapucaí.

2019 - História pra Ninar Gente Grande

O carnaval de 2019 consagrou Leandro Vieira na Estação Primeira de Mangueira. O carnavalesco já havia vencido em 2016 com uma homenagem à cantora. Maria Bethânia. Naquele ano, a escola falou sobre personalidades negligenciadas pela narrativa oficial da História do Brasil e venceu o carnaval.

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