RIO - No dia 28 de fevereiro de 2026, o mundo voltou a ouvir um som que a história conhece bem: o som de uma guerra que começa localizada, mas carrega o potencial de incendiar o planeta.
Sob ordens do presidente americano Donald Trump, os Estados Unidos lançaram uma ofensiva militar contra o Irã, atingindo instalações estratégicas e ampliando uma tensão que há décadas alimenta o tabuleiro geopolítico do Oriente Médio. A justificativa oficial foi impedir ameaças à segurança americana e de seus aliados. A resposta iraniana veio rápida: mísseis, drones e ataques indiretos por meio de grupos aliados espalhados pela região.
O conflito começou no Golfo Pérsico, mas as suas consequências já atravessam fronteiras, mercados e governos. Como quase toda guerra moderna, ela não se limita aos campos de batalha. Ela se infiltra na economia global — e, inevitavelmente, chega ao cotidiano das pessoas.
Inclusive no Brasil.
A atual escalada representa o confronto militar mais direto entre Washington e Teerã em décadas. O objetivo declarado da Casa Branca é conter a capacidade militar iraniana e enfraquecer sua influência regional.
Mas especialistas alertam que a guerra pode ter consequências muito mais amplas.
O cientista político Ian Bremmer, fundador do Eurasia Group, define o conflito como um “ponto de inflexão na ordem geopolítica do Oriente Médio”. Já o professor de relações internacionais Stephen Walt, da Universidade Harvard, lembra que guerras preventivas frequentemente produzem exatamente o efeito contrário ao desejado: ampliam as ameaças que pretendiam neutralizar.
O problema não é apenas começar uma guerra. É conseguir encerrá-la.
Embora as bombas caiam no Oriente Médio, o verdadeiro campo de impacto dessa guerra passa por um ponto geográfico estratégico: o Estreito de Ormuz.
Ali circula cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo.
Se essa rota for bloqueada ou mesmo parcialmente interrompida, o choque energético global pode ser imediato. O historiador militar Max Boot lembra que conflitos envolvendo rotas energéticas têm um histórico de desencadear crises econômicas internacionais.
Em outras palavras: quando o petróleo entra em guerra, o mundo inteiro entra junto.
A primeira vítima dessa guerra não é militar. É econômica.
Os preços do petróleo já reagiram com volatilidade, refletindo o temor de interrupções no abastecimento global. Segundo o economista Jeffrey Sachs, choques de petróleo provocados por conflitos geopolíticos costumam produzir uma sequência conhecida:
E é exatamente nesse ponto que o Brasil entra na equação.
Mesmo sendo produtor de petróleo, o Brasil não está blindado contra choques internacionais.
Quando o barril dispara no mercado global, o reflexo aparece rapidamente nos combustíveis. Gasolina e diesel mais caros elevam o custo do transporte, pressionam a logística e acabam encarecendo praticamente tudo — dos alimentos aos produtos industrializados.
O economista brasileiro Armínio Fraga já alertou em diversas ocasiões que crises energéticas são um dos motores mais rápidos da inflação em economias emergentes.
Traduzindo para a realidade cotidiana: guerras no Oriente Médio podem se transformar em inflação no supermercado brasileiro.
Historicamente, o Brasil adota uma postura diplomática de equilíbrio em conflitos internacionais. O Itamaraty costuma defender negociações multilaterais e soluções diplomáticas.
Mas neutralidade diplomática não significa imunidade econômica.
O governo brasileiro enfrenta três preocupações centrais neste momento:
Em um mundo globalizado, crises geopolíticas se transformam rapidamente em crises econômicas domésticas.
Toda guerra tem também um front político.
Para o presidente Donald Trump, o conflito pode se transformar em uma aposta de alto risco. Se a operação militar se prolongar, os custos financeiros e humanos podem provocar desgaste político dentro dos próprios Estados Unidos.
O cientista político John Mearsheimer, um dos principais teóricos do realismo nas relações internacionais, costuma lembrar uma verdade incômoda da história: guerras são fáceis de começar e extremamente difíceis de terminar.
Essa máxima acompanha praticamente todos os conflitos modernos envolvendo grandes potências.
Hoje, analistas internacionais discutem três cenários possíveis.
O primeiro é uma guerra limitada, com ataques pontuais e sem invasão terrestre.
O segundo é uma escalada regional, envolvendo aliados do Irã e ampliando o conflito para outros países do Oriente Médio.
O terceiro é um acordo diplomático, resultado de pressão internacional e impacto econômico global.
O problema é que guerras raramente seguem roteiros previsíveis.
E é exatamente isso que preocupa os analistas.
Toda guerra começa com a promessa de que será rápida. A história mostra o contrário.
A Primeira Guerra Mundial deveria durar meses. Durou quatro anos.
A guerra do Iraque prometia estabilidade regional. Produziu décadas de instabilidade.
A verdade estratégica é simples: conflitos armados têm uma tendência natural à escalada.
Quando grandes potências entram em confronto com atores regionais estratégicos, o risco de expansão sempre existe.
A guerra entre Estados Unidos e Irã é mais do que um confronto militar.
Ela é um teste para a estabilidade do sistema internacional.
E, inevitavelmente, atinge economias a milhares de quilômetros do campo de batalha.
No Brasil, talvez não haja sirenes ou explosões. Mas haverá impactos silenciosos: na inflação, no combustível e no custo de vida.
Porque, no mundo interligado de hoje, não existem guerras verdadeiramente distantes.
Existem apenas guerras cujas consequências ainda não chegaram.
E quando chegam, geralmente chegam para todos.
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